Oscar 2017 – Review – Jackie

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Jackie

Direção: Pablo Larraín

Elenco:  Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt, Richard E. Grant, Caspar Phillipson, John Carroll Lynch, Beth Grant.

E.U.A. 2016

Indicado ao Oscar nas categorias Melhor atriz, figurino e trilha sonora, Jackie do chileno Pablo Larraín reconta os dias após o assassinato e até o sepultamento do presidente dos Estados Unidos John Fitzgerald Kennedy em 1963, tudo pela perspectiva de sua esposa, a primeira dama Jacqueline Kennedy vivida por Natalie Portman.

Jackie não é uma biografia, que tradicionalmente temos no cinema, contando toda a vida do personagem título. Jackie se concentra em construir um quadro emocional e psicológico da ex-primeira dama dos EUA, apontando o que ela viveu naquele momento tão difícil e marcante na sua vida. Desde o atentado, com ela sobre o carro tentando juntar as partes da cabeça do marido, passando pelos momentos com a família, funcionários e políticos enquanto tenta se fortalecer para organizar o velório e enterro de Kennedy como deve ser.

O roteiro se desenvolve a partir da entrevista que Jackie concede ao jornalista Theodore White (Billy Crudup), da revista Life, dias após o funeral. Assim Natalie apresenta diferentes nuances de Jacqueline Kennedy, como esposa, primeira dama, hora parecendo perdida no que fazer, hora forte batendo de frente com Bobby Kennedy (Peter Sarsgaard) e outros. O flashback que apresenta Jackie bem desconfortável participando de um programa de TV onde ela falava da decoração que fez na Casa Branca também contribui muito para demonstrar as diferentes posturas que uma pessoa na posição dela era obrigada a assumir. Ainda que o filme desnude a personalidade de Jackie, nunca sabemos exatamente quem ela é. Essa é a intenção. Outros momentos chaves são as conversas com o padre interpretado por John Hurt, num dos seus últimos papeis e as cenas com sua funcionária Nancy (A ótima Greta Gerwig de Frances Ha), parece ter uma amizade entre as duas, ou seria só cordialidade entre funcionária e patroa? Nada fica nítido, tudo é possível de interpretação.

A forma como Jackie organiza o funeral do marido contribuiu muito para construir a imagem que o presidente Kennedy tem até hoje. Criou um símbolo, como ela mostra que era seu objetivo. Porque se for parar para estudar história dos Estados Unidos, ele não fez tanto assim, até porque não deu tempo. Ele deixou bases que depois tiveram continuidade com Lyndon Johnson, como o avanço dos direitos civis no país e a política intervencionista apoiando golpes na América Latina no contexto da Guerra Fria.

O diretor Pablo Larraín de No, outro filme bastante político, fez então a história com a personagem como centro. Natalie Portman está em todas as cenas do filme, tudo é visto a partir da sua ótica. Algumas pessoas falaram da artificialidade de alguns momentos de Jackie, como no desenrolar da entrevista e na própria interpretação de Natalie, porém isso não prejudica, pois a artificialidade faz parte do que o filme retrata, tudo é construído.

Todos sabem que sou suspeito para falar de Natalie Portman, sou fã dela desde O Profissional, mas não deixo de reconhecer quando ela está no piloto automático, como nos filmes do Thor. Aqui ela faz realmente um ótimo trabalho, merecendo sua terceira indicação a Oscar. Ela utiliza propositalmente voz baixa e calma para compor Jackie, aumentando o tom só quando necessário, recria seu sotaque e usa também de linguagem corporal precisa. Na minha opinião ela só perderia a estatueta para Isabelle Huppert, mas, como as coisas não são como queremos, nenhuma das duas vai ganhar.

As outras indicações também são merecidas, a trilha sonora da compositora  Mica Levi, que também fez um ótimo trabalho em Sob a Pele. Suas composições colaboram para passar a confusão de sentimentos e emoções que Jackie estava vivendo. É uma trilha sonora angustiante, que só fica tranquila nos momentos mais leves. É o que ocorre também com a fotografia, hora mais cinza, hora mais iluminada, mas a outra indicação é para Madeline Fontaine pelo figurino, uma recriação perfeita.

Jackie tem Darren Aronofsky na produção, inicialmente ele dirigiria e o filme seria estrelado por  Rachel Weisz, mas depois ele passou o projeto para Larraín, que fez questão de ter Natalie no projeto. Ao ver o filme se percebe porque o interesse dele no projeto, tem a ver com o que Aronofsky gosta de fazer. Principalmente na cena em que Jack surge desesperada coberta de sangue e tenta se limpar ao chegar em casa. Os personagens de Aronofsky sempre estão passando por situações de desespero, ainda que esse não envolva autodestruição como os anteriores.

 

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Dre Tinoco

Geográfo, viaja tanto que quase não tem tempo para escrever nessa josta. Mas, sempre dá um jeito de ver as postagens com a Natalie Portman

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