REVIEW: CAPITÃO AMÉRICA – GUERRA CIVIL

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Capitão América: Guerra Civil
(Captain American: Civil War)
Direção: Anthony e Joe Russo
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Daniel Brühl, Chadwick Boseman, Anthony Mackie, Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Paul Rudd, Tom Holland, Don Cheadle, Emily VanCamp, Marisa Tomei, William Hurt, Martin Freeman e Frank Grillo.

poster guerra civil

Oriundos de duas séries de humor, Arrested Development e Community, tendo no currículo alguns curtas e apenas uma longa-metragem, a comédia You, Me and Dupree, Os Irmãos Russo se revelaram as melhores aquisições da Marvel Studios até o momento. Responsáveis por Capitão América: O Soldado Invernal, o filme mais maduro e coeso do estúdio, a dupla de diretores acertou novamente em Guerra Civil.

Cresci assistindo filmes de ação e sou apaixonada pelo gênero; o modo como os Russo desenvolveram seus dois filmes para a Marvel me lembra um tanto o cinema de ação oitentista, de filmmakers como Richard Donner, Andrew Davis, John McTiernan, entre outros. Eram diretores que sabiam equilibrar ação, humor e drama. E é isso que costuma faltar às adaptações de HQs para o cinema.
Até agora a Warner/ DC apresentou dois filmes de seu universo: O Homem de Aço e Batman Vs. Superman, o segundo sendo bem pior que o primeiro, mas, ambos comandados por Zack Snyder, tem problemas de ritmo e cenas de ação confusas. Já a Marvel, com uma receitinha de sucesso, errou feio poucas vezes, caso do excesso de piadinhas de Homem de Ferro 3, no entanto, não costuma ir além da diversão inofensiva e previsível de filmes como Homem Formiga, Homem de Ferro 2 e etc. Mesmo Vingadores, que eu gosto muito, agrada mais pelo awesome de reunir os heróis pela primeira vez, do que por qualidades reais do roteiro, com sua superficialidade e humor, por vezes, mal inserido. Sua sequencia, Vingadores: A Era de Ultron, peca ainda mais, pois apenas repete o primeiro filme, não vai além, e ainda tem sequencias de ação que não empolgam em nada. Na mesmice da Marvel, as exceções são mesmo o primeiro Homem de Ferro, que começou tudo (pena que depois pegaram a estrutura do filme e transformaram em uma cartilha automatizadora de cinema), Guardiões da Galáxia, com seu humor preciso e referencias pops e, por fim, os dois longas dos irmãos Russo. Alias, junte esses a Superman: O Filme, X-Men, X-Men 2, X-Men: Primeira Classe, Hulk de Ang Lee (esse é meio polêmico, se quiser saber porque gosto tanto desse filme, entre aqui) e Batman: O Cavaleiro das Trevas e você tem toda a minha lista de filmes relevantes de super heróis. O restante pode até ser bacana, divertido e tal, mas é só.

Capitão América: Guerra Civil sabe aproveitar incidentes dos filmes anteriores, principalmente a destruição de Sakovia em Era de Ulron, não apenas para dar o ponta pé inicial no conflito entre os heróis, mas como motivadores dos mesmos. Resumindo a história, governos pelo mundo acham que Os Vingadores são perigosos e não devem agir de maneira independente. Assim, surge o Acordo de Sakovia, que diz que os heróis devem agir apenas quando autorizados pela ONU. Os que se recusarem a aceitar o acordo, devem se aposentar, caso contrário serão tratados como criminosos. Responsabilidade, lealdade, honra e culpa são alguns dos sentimentos que levam os superpoderosos assinar ou não o acordo. O Homem de Ferro lidera aqueles que preferem não bater de frente com o governo, enquanto o Capitão América acredita que os Vingadores serão manipulados e usados pelos políticos, ao invés de proteger as pessoas. Permeando essa trama, temos Zemo, o vilão do filme, agindo na obscuridade.

Um dos melhores aspectos de Guerra Civil é sua carga dramática e sua ênfase no lado humano desses super seres. O longa o tempo todo se preocupa em explicar o que motiva cada um dos personagens. Mais um ponto para os Russo. Um filme com tantos personagens e até uma inserção de ultima hora, poderia ter como resultado personagens soltos, mal utilizados, porém não é o que acontece. Além disso, personagens bem construídos geram oportunidades do elenco se destacar. E é um excelente elenco, diga-se a verdade. O problema é esses talentos não costumam ser tão bem explorados nos filmes da Marvel. Já aqui, apesar de temos alguns personagens centrais, os demais também têm pelo menos um momento importante durante o filme.

Vamos nos deter um pouco no elenco. Chris Evans, como já disse em outras oportunidades, pra mim foi a escolha mais equivocada nos elencos da Marvel, mas, mesmo ele, dentro de suas limitações, consegue fazer o que o personagem exige e não compromete. Steve Rogers é o Sentinela da Liberdade, um homem de caráter retilíneo, que não está disposto a desviar de seus valores, não importa a situação. E isso não é necessariamente algo bom, não quando, em parte, também se é levado pela culpa, em seu empenho em manter sua amizade com Bucky, ultimo vinculo com o passado, pois sentir-se culpado por não ter conseguido salvá-lo do acidente, que resultou em seu sequestro e lavagem cerebral. Esse conjunto de sentimentos mostram que o Capitão América é humano e também comete atitudes impensadas, que podem ser as ideologicamente mais corretas, mas não apropriadas para o momento.

Bucky, vivido pelo romeno Sebastian Stan, é outro que merece destaque. Ainda atormentado pelas experiências dos russos, martiriza-se através de uma vida de fugas solitárias, apesar de saber que não tinha o controle de seus atos do passado. Contrapondo-se à figura sombria do Soldado Invernal, Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie), tem sempre uma tirada bem humorada, mas passa longe de ser um mero alivio cômico ou uma figura descartável. Aliás, o modo como ele, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner, que aparece pouco, mas tem um ótimo dialogo com o Stark em certo momento), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Sharon Carter (Emily VanCamp) se colocam ao lado do Capitão América diz muito sobre o idealismo que o personagem inspira. No time do Homem de Ferro, cada personagem esta lá por motivos diversos, no time do Capitão, eles se reúnem por admiração ao herói.

Fechando o #teamcap, o Homem Formiga, era um personagem que eu ficava me perguntando: o que vão fazer com esse cara agora que eles tem o Homem-Aranha, para ser o cara normal que ganha poderes de repente, se vê no meio dos super heróis e fala várias piadinhas? Pois bem, até ele tem seus momentos, de boas piadas e, quem diria, uma parte de grande importância em uma das batalhas do filme. O que é legal, pois acho o Paul Rudd, que interpreta o alterego Scott Lang, ótimo ator, além de divertidíssimo.

Vamos ao #teamIronMan. Robert Downey Jr, o Tony Stark, é o principal astro da Marvel. Sempre achei Downey um ótimo ator, mas, excluindo o primeiro Homem de Ferro, ele vem atuando no piloto automático tem um tempo, com todas aquelas características que fazem o publico amar o Stark, o sarcasmo, as falas rápidas, mas sem uma real composição de personagem. Em Guerra Civil, ele ganha a oportunidade de fazer algo mais. Amargurado, acompanhamos um Tony Stark solitário e triste. Devo dizer, que nunca confiaria em políticos pra nada, então não tem como eu não ser #teamcap, porém, mesmo discordando do posicionamento político do Homem de Ferro e lembrando todas as coisas ruins que ele já fez anteriormente, não consegui não me compadecer com seu sofrimento e o seu ponto de vista é sim bastante compreensível.

Scarlett Johansson, como sempre, rouba várias vezes a cena, pois sabre aproveitar as nuances da Viúva Negra. Apesar do ar sempre contido da personagem, dá para sentir as dúvidas dela, quando fica entre se autopreservar, se colocando ao lado de Stark e do Acordo político de Sakovia ou seguir o idealismo do Capitão, por quem, obviamente, tem uma maior afeição que por Stark. Também não podemos deixar de comentar as cenas de luta da Viúva, simplesmente perfeitas e levam a questão: cadê o filme da Natasha?!?

Visão (Paul Bettany) é sem duvida a figura mais poderosa do filme, mas apesar do imenso poder que carrega e da sua capacidade analítica, ele não é invulnerável; sua vulnerabilidade vem do seu lado humano, ainda em desenvolvimento, seja no relacionamento com Wanda, que começa a se desenhar, seja quando percebe que também pode cometer erros, assim como os demais.

No time do Homem de Ferro, temos ainda o Maquina de Combate (Don Cheadle), o melhor amigo de Tony Stark, ou mais precisamente, o único amigo; um personagem bastante subaproveitado anteriormente, porém essa relação de amizade se faz importante no desenrolar do filme e suas consequências, da mesma forma que a relação Capitão e Bucky.

Ainda no time Stark, surgem duas novidades no Universo Marvel. T’Challa/ Pantera Negra se junta ao Homem de Ferro movido por vingaça, vocês sabem: o inimigo do meu inimigo, é meu amigo. Chadwick Boseman vive o personagem com altivez digna do monarca de Wakanda e as cenas de luta do personagem são incríveis. Para quem ler as HQs, é como ver o Pantera saltar do papel e criar vida na tela.

A outra novidade, já é conhecido do publico de cinema. Dessa vez, somos poupados de ver o tio Ben morrer pela enésima vez, Peter Parker (Tom Holland) já vem atuado como Homem Aranha a alguns meses. O Cabeça de Teia surge jovial e tagarela no campo de batalha, como em seus primórdios nos gibis, provocando gargalhadas com suas piadinhas e reações entusiasmadas, típicas de um adolescente que está apavorado e, ao mesmo tempo, eufórico com tudo que está acontecendo ao seu redor. Mal posso esperar pelos filmes do Pantera Negra e do Aranha.

Para finalizar os comentários sobre elenco e personagens, o vilão, Zemo, é interpretado pelo excelente Daniel Brühl. Não quero dar spoilers aqui, então não tem como falar detalhadamente do personagem. Mas, em linhas gerais, dá para dizer que sim, ele não tem praticamente nada do Barão Zemo das HQs, embora, em sua defesa, possamos dizer que é um personagem muito bem construído, com uma motivação forte, que acaba criando um paralelo com heróis, divididos por culpa, rancor e vingança.

Assim como em Soldado Invernal, os Irmãos Russo apostaram em cenas de ação mais realistas, com efeitos práticos, dublês e o CG sendo usando de maneira discreta, quando é absolutamente necessário. Temos, dessa maneira, perseguições e muitos embates físicos. E isso faz toda a diferença, principalmente, na maior sequencia de ação do longa: o confronto no aeroporto. É incrível como nos trailer essa cena parecia pequena. No filme, ela é muito mais grandiosa, envolvendo todos os heróis, provando, mais uma vez, a competência dos diretores, que conseguem usar bem as habilidades de todos os personagens, sem se esquecer de ninguém, em uma sequencia empolgante e bem orquestrada.

Capitão América: Guerra Civil é uma aula de como uma boa adaptação de HQ deve ser: dramática e séria, sem precisar de filtros na cor cinza, e divertida, sem forçar piadinhas a cada cinco minutos.

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Formada em Letras, apaixonada por Literatura e viciada em Cultura Pop. Tornou-se irremediavelmente fã de Jaspion aos 3 anos. Quando criança (e ainda hoje) preferia os filmes do Schwarzenegger a qualquer desenho da Disney e acha que o Viggo Mortensen também é lindo sem a caracterização de Aragorn
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