Review – De Canção em Canção

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 Song To Song

Direção: Terrence Malick

Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Tom Sturridge, Patti Smith, Iggy Pop. 

EUA, 2017. 

Estreia aqui no Brasil,  nessa quinta, dia 20 de julho, o novo filme de Terrence Malick. Considerado um dos grandes diretores estadunidenses em atividade, tem pelo menos quatro décadas de trabalho, mas esse é apenas seu nono filme. Conferi “De Canção em Canção” na última semana numa exibição para a imprensa (é, estamos importantes), o filme é uma história de amor, ciúme e traição à moda Malick de contar histórias.

O enredo de “De Canção em Canção” é todo ambientado em Austin, cidade do estado do Texas conhecida como capital mundial da musica ao vivo, com exceção de uma parte no México. Austin é o cenário de diversos festivais consagrados como o “Austin City Limits” que ocorre todo verão, o “South By Southwest”, super influente festival multimídia existente desde a década de 1980 e o festival alternativo onde se descobre novos talentos, “Fun Fun Fun Fest”. O filme tem cenas em todos esses festivais e várias estrelas da música aparecem interpretando eles mesmos. Austin vibra ao som de música, tem espaço para rock, punk, folk, country, ritmos latinos, entre outros. Quem falou que aparece pouco da cena musical no filme e se limita a conversas com alguns famosos deve ter cochilado.

Nesse cenário musical acontece a história de romance contemporâneo envolvendo um triangulo amoroso que tem  no centro Faye (Mara), uma musicista, integrante de uma banda, ela está em início de carreira. Compõem o triangulo com ela, BV (Gosling) um musico já em ascensão e Cook (Fassbender), magnata produtor musical. Acontece que Faye e BV estão juntos, mas ao mesmo tempo há algo entre ela e Cook, ela sabe que precisa dele para decolar sua carreira. Faye então está dividida e carrega sentimentos de culpa, porém,  nada é simples nem para BV, ele também de certa forma precisa de Cook, pois foi com a produção dele que conseguiu sucesso, aparentemente os dois são amigos e a relação de Cook com Faye era anterior.

Cook, numa grande interpretação de Fassbender, é altamente manipulador, mas os outros aceitam ser manipulados sorrindo, devido ao seu carisma e, lógico, sucesso e poder. Por volta da metade do filme surge na tela Rhonda (Natalie), ela é uma professora de educação infantil, moradora do lado baixa renda de Austin que trabalhava como garçonete por falta de opções, ela conhece Cook e acaba iludida por ele. Ele, porém tem outras camadas, ele se sente um Deus, pode fazer praticamente tudo que quer, mas ao mesmo tempo é vazio em outros sentimentos. Todos os personagens do filme estão em processo de alto conhecimento e Cook vai descobrir que poderia gostar de verdade de Rohnda, mas talvez tarde demais.

Para contar a história Malick usa das técnicas que já vem utilizando desde “Além da Linha Vermelha”, ainda meu preferido desse seu “retorno”, e que levou a outros níveis em “A Arvore da Vida”, mais narração em off do quê diálogos, várias cenas contemplativas, em algumas cenas podemos ver o que se passa e ouvir o pensamento dos personagens. O fato então, é que não é nada novo, é apenas levar essas técnicas a outros patamares.

Para quem gostou dos anteriores do Malick, não tem porque não gostar desse. mas para quem não gosta, é provável que durma. Não que o filme seja lento, na verdade não é, os personagens não param na tela, rodam pra lá e pra cá, se jogam e a câmera acompanha, a trilha sonora também traz um ritmo ágil. O que acontece é que a história não é contada de forma linear, são momentos, situações de amor, conflito, dor, cumplicidade, etc. que nós só vamos entender a ordem dos acontecimentos aos poucos. E tudo é narrado de forma intimista, é mais importante para o filme saber o que os personagens estão sentindo do que o que está acontecendo. Então, para algumas pessoas natural que essa forma de contar história não agrade. Eu ainda gostei mais desse do que “A Arvore da Vida”, porque a narrativa segue dessa forma até o fim.

Sobre a parte técnica é como dizem um filme lindo com uma fotografia linda. Malick trabalha novamente com o mestre Emmanuel Lubezki. Com mais de 30 filmes no currículo ele é colaborador recorrente também de Alejandro González Iñárritu, que foi o diretor de dois dos filmes pelos quais ganhou recentemente Oscar em três anos seguidos.

O elenco como um todo está bem, há um quê de teatro nas interpretações, não nos diálogos que são como um todo contidos, mas nos gestuais e ações físicas. Rooney Mara parece dançar balé, sua personagem diz muito sem precisa falar. Ryan Gosling não vi fazendo nada muito diferente do que fez em “La La Land”, ainda que sejam personagens diferentes, toca piano, faz uns passinhos de dança com Rooney Mara. Já Michael Fassbender, ele se joga pra lá e pra cá, dança, imita macaco, “luta” com integrantes do Red Hot Chili Peppers, faz um tipo vil que não chegamos a odiar, e Natalie Portman, ela está numa interpretação que exala sensualidade, paixão e também ingenuidade.

Há um elenco de apoio excelente composto por, entre outros, Cate Blanchett, Holly Hunter e Bérénice Marlohe (bond-girl de 007 – Operação Skyfall), como pessoas que entram nas vidas.dos protagonistas em diferentes momentos. Val Kilmer parecendo uma mistura de Jim Morrison com Ozzy Osbourne interpreta o vocalista da banda de Faye, que aliás, os outros integrantes são a banda Black Lips sucesso recente, uma das cenas da banda de Faye foram gravadas na apresentação real do Black Lips no “Fun Fun Fun Fest”.

Por fim, há várias participações de artistas da música, além de Black Lips e Rede Hot temos Iggy Pop, a cantora sueca Lykke Li, Florence Welch, entre outros. Patti Smith é a que tem maior destaque, aparecendo conversando com Faye sobre carreira, música, amor, apontando que o que a protagonista vive é o que acontece com mulheres que estão nesse meio da musica e do showbiz.

“De Canção em Canção” é, então a versão de Malick de uma história de amor nos tempos modernos. Ele que já foi professor de Filosofia no MIT mergulhou fundo nos sentimentos de seus personagens para mostrar mais do que contar essa história. Não deixa de ser uma história de amor, um romance, que até quem só gosta de filmes com happy end pode curtir, se não forem avessos aos métodos de Malick.

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Dre Tinoco

Geográfo, viaja tanto que quase não tem tempo para escrever nessa josta. Mas, sempre dá um jeito de ver as postagens com a Natalie Portman

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