Review – Eu Não Sou Seu Negro

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I Am Not Your Negro

Direção: Raoul Peck

EUA, 2016

Documentário indicado ao Oscar, perdeu para O.J. Made in America, “Eu não sou seu negro” aborda a questão racial nos Estados UnIdos a partir da narrativa do escritor James Baldwin, mais precisamente de um manuscrito incompleto, “Remember This House”, que foi entregue ao diretor Raoul Peck e nunca publicado. Nesse manuscrito que seria seu próximo livro, mas faleceu antes de terminá-lo,  ele analisava a luta dos negros por direitos civis partindo das histórias de três líderes: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr., todos assassinados.

Nascido no Harlem em Nova York, em uma família pobre, James Baldwin foi próximo a esses três grandes líderes em vários momentos, pois ele próprio esteve em passeatas e outras manifestações pelos direitos civis e contra  a segregação racial. Baldwin faleceu de câncer no estômago em 1987 aos 63 anos. Ele, que não só sentia na pele o preconceito racial, mas também o sexual, pois era gay, se exilou dos Estados Unidos quando tinha 24 anos e viveu durante nove anos na França, mas voltou exatamente porque não conseguia deixar de participar da luta contra a segregação que massacrava (e ainda massacra) o povo negro.

Dono de uma prosa forte, em seus romances e peças Baldwin trabalhava suas questões individuais, que eram também questões que pulsavam em todo o tecido social, ainda que mascarada, invisibilizada.  Seu segundo romance, Giovanni’s Room (O Quarto de Giovanni) de 1956, não era centrado no racismo, mas na relação entre dois homens marcada por questões existenciais sobre aceitação, isso muito antes da luta pelos direitos dos homossexuais alcançarem mais espaço. Um de seus últimos textos, “Mortes em Atlanta” narrava de forma jornalística o massacre de 28 crianças negras e pobres em Atlanta. Vale lembrar que Baldwin influenciou escritores como Truman Capote e Tom Wolfe.

Essa força de sua prosa aparece no documentário, narrado de forma brilhante por Samuel L. Jackson. O texto é acompanhado de imagens de confrontos e manifestações que marcaram a história, além de videos de entrevistas do próprio Baldwin e outros elementos que ele usava em sua narrativa, como as referências aos filmes de Hollywood que já traziam negros e serviam para entender as transformações da questão racial no país, o que não significava o fim do racismo e da segregação. Assim vemos, por exemplo, sua análise de filmes de Sidney Poitier.

Alguns críticos acham que faltou o filme ir mais a fundo na pessoa James Baldwin, e explorar outros aspectos, alguns questionam o fato dele ter ido para a França, como se para ser considerado ativo na luta ele teria que ter sido assassinado como seus três amigos líderes ativistas. O policiamento da militância alheia é algo que as vezes irrita e a importância de James Baldwin é inegável.

Soube que Raoul Peck é o diretor de “O Jovem Karl Marx” cinebiografia sobre Marx que vai de 1844, quando ele conhece Friedrich Engels, até a Primavera dos povos em 1848, período em que estão desenvolvendo o Manifesto Comunista. Falaram que o filme tem um estilo meio televisão, tipo as mais clichês biografias e nem parece do mesmo diretor desse documentário, o filme acabou de ser exibido no 67° Festival de Cinema de Berlim, bem, é esperar para ver.

Por fim, o objetivo não  era mesmo dissecar a persona James Baldwin, mas partir dele para falar da história do racismo nos Estados Unidos. É um filme fundamental, pois essa visões preconceituosas do negro, assim como de outros povos e etnias construídos como “o outro” continuam perdurando aqui, lá, em qualquer lugar.

 

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Dre Tinoco

Geográfo, viaja tanto que quase não tem tempo para escrever nessa josta. Mas, sempre dá um jeito de ver as postagens com a Natalie Portman

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