Review – Lady Bird: A Hora de Voar

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Lady Bird

Direção: Greta Gerwing

Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Beanie Feldstein, Jordan Rodrigues e Timothée Chalamet

EUA, 2017

Lady Bird deve ser um dos filmes mais amados nessa temporada de Oscar. Ao menos, eu vi pouquíssimas pessoas que não amaram e as que vi, logo tinha alguém questionando: “porque não gostou?” “mas não gostou nem um pouco?”. Isso porque Lady Bird é o tipo de filme que evoca identificação, pois trata da transição de uma adolescente para a vida adulta e seus conflitos.

No filme, Christine ( Saoirse Ronan) é uma adolescente que estuda em um colégio católico e deseja desesperadamente deixar sua cidadezinha e alçar voos mais altos. O problema é que a menina, que quer ser chamada Lady Bird, vem de uma família que passa por dificuldades financeiras e não tem como mandá-la para uma faculdade cara em outra cidade. Sua mãe (Laurie Metcalf) é enfermeira e faz muitas horas extras para manter a família, já que o marido (Tracy Letts) está desempregado e sofre de depressão. Ainda vivem na casa, o irmão adotivo (Jordan Rodrigues ) e sua namorada, que trabalham em um mercadinho.

Dirigido e roteirizado por Greta Gerwing, o filme mostra os anseios da adolescente e foca principalmente no conflito com a mãe, que é autoritária e não muito afável, embora a atuação de Metcalf garanta que não fiquem dúvidas sobre o amor dela pela filha, mesmo que está ultima, com todas as suas inseguranças, acabe questionando em alguns momentos.  Na primeira cena de Lady Bird, mãe e filha se emocionam ao ouvirem a versão em áudio de As Vinhas da Ira no toca-fitas do carro, pouco tempo depois iniciam uma discussão, que parece já vir de certo tempo e ser retomada periodicamente. A sequencia revela a dinâmica o relacionamento de mãe e filha, que consiste em momentos de ternura pontuados por brigas.

Em certa parte do filme, a mãe diz para Lady Bird afirma que cobra ela porque quer que a filha seja “a melhor versão de si mesma”, ao que a jovem pergunta “e se essa for a melhor versão?”. A questão é que ela, diferentemente, por exemplo, da Enid de Ghost World (um dos filmes coming of age favoritos), não é realmente uma personagem deslocada em seu ambiente. Lady Bird, como todo adolescente, não sabe ainda muito bem o que fazer da vida. O problema é que trata-se é uma garota que pensa ser muito mais especial do que ela é realmente.

Aluna mediana, ela precisa roubar o diário do professor para conseguir alterar suas notas e ter o suficiente para tentar outra faculdade. E, não, não estou dizendo que ela precisasse ser brilhante em nada. Acontece que  ela exige apoio familiar, especialmente da mãe, em um plano que nem mesmo sabe qual é. Lady Bird diz querer estudar arte, mas você não a vê fazendo algo nesse sentido.  Mesmo as aulas de teatro na escola, ela permanece apenas enquanto nutre interesse romântico em outro aluno (Lucas Hedges), mas abandona quando se interessa por outro (Timothée Chalamet, que gostei bastante em Me Chame Pelo Seu Nome, mas aqui, meusdeusquepreguiça) e precisa investir tempo para entrar no ciclo de amizades de adolescentes riquinhos.

Para se aproximar do músico de ar blesé, mente sobre seu endereço e suas possibilidades financeiras. Claro que, como eu disse, é uma história sobre amadurecimento, então, ela acaba percebendo que não vale a pena tentar agradar ninguém, mentindo sobre suas origens, principalmente depois dos novos amigos e o namorado pretensioso demonstrarem que estão cagando para ela. Ao se ver sozinha, após conseguir entrar para a sonhada faculdade, também começa a ver a família de modo diferente. Tudo bem bonitinho, pontuado por trilha sonora e humor típico em filmes indies.

O que mais me incomoda em Lady Bird é egocentrismo  da protagonista. Não tenho nenhum problema com personagens imperfeitas, as contradições e comportamento excessivamente dramático da personagem poderiam até ajudar a compor a jovem cheia de incertezas; o problema é que o desencadeamento de algumas situações no filme parecem passar a mão pela cabeça da adolescente, afinal, ela meio que consegue o que queria, mesmo sem o glamour sonhado, é como se o roteiro dissesse: os pais precisam apoiar os sonhos de seus filhos, certíssimo fazer (mais) dívidas para sua filha poder estudar em outra cidade; tudo bem ela ser extremamente grosseira com o irmão, afirmando que ele nunca arrumaria um emprego usando piercings, pois ele vai vestir terno, tirar os piercings e, de fato,  conseguir um emprego melhor em uma cena posterior, porque aparentemente a mensagem de “não tente ser algo diferente do que você é”, aprendida pela protagonista, só vale para ela mesma.

A direção de Greta é correta, mas não escapa dos cacoetes de dezenas de outras comedias indies, a montagem rápida, o humor que entra para amenizar situações potencialmente tensas. A atuação de Saoirse também é ok, mas nada muito diferente do que ela já fez, por exemplo, em sua outra indicação a Melhor Atriz no Oscar, no fraquinho Brooklyn, não sei se outra indicação se justifica. No final das contas, apesar da embalagem cultzinha, não vai nada além de outros diversos filmes sobre amadurecimento, com mensagens de que não vale a pena buscar ser quem você não é (alguns, aliás, muito melhores, como qualquer filme teen do John Hughes). Ou sei lá, talvez a vida adulta tenha me tirado a paciência para adolescente mimado.


Espalhe!

Dri Tinoco

Formada em Letras, apaixonada por Literatura e viciada em Cultura Pop. Tornou-se irremediavelmente fã de Jaspion aos 3 anos. Quando criança (e ainda hoje) preferia os filmes do Schwarzenegger a qualquer desenho da Disney e acha que o Viggo Mortensen também é lindo sem a caracterização de Aragorn

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