Review: Oscar 2014 – Clube de Compras Dallas

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Clube de Compras Dallas

(Dallas Buyers Club)

Direção: Jean-Marc Vallée

Com: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn e Griffin Dunne

EUA, 2013.

Matthew McConaughey teve seu primeiro papel de destaque em Tempo de Matar (1996), de Joel Schumacher. Entretanto, sua carreira tomou outros rumos e acabou marcada pelas come´dias românticas. Nos últimos tempos, no entanto, McConaughey, através de filmes como Mud, Killer Joe e O Lobo de Wall Street, vem mudando sua trajetória mais uma vez. Em entrevista a Veja, o ator comentou a recente mudança:
Eu diria que estou no mesmo livro, mas em um capítulo diferente. Eu mudei de marcha. É um novo tempo na minha vida e eu queria redirecionar a minha carreira. isso não quer dizer que eu não tenha gostado do que fiz antes. Algumas comédias românticas que eu fiz eram ótimas. Eu gostei dos últimos 22 anos, mas não queria continuar me repetindo. Eu não sou arrogante suficiente para vaiar qualquer coisa que eu tenha feito no passado. Eu não estaria sentado aqui se eu não tivesse feito o que eu fiz. Quando eu comecei a negar as ofertas, foram seis meses sem novas ofertas e um ano e meio nas sombras. Eu me tornei anônimo, pois as pessoas não me viam em comedias românticas e perguntavam por onde eu andava. Após esse período de seca, eu comecei a me tornar uma boa ideia para pessoas como o Steve Soderbergh [com quem trabalhou em Magic Mike). E esses papéis mais densos começaram a vir na minha direção. Eles só vieram porque eu comecei a dizer não outro tipo de trabalho.
Bendita mudança. Afinal é na atuação de McConaughey, bem como na de Jared Leto, que reside a força de Clube de Compras Dallas, um pequeno filme, baseado em fatos reais, que chega como favoritíssimo em duas das categorias mais importantes do Oscar: Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, nas quais concorrem McConaughey e Leto, respectivamente.
Assim como McConaughey, Ron Woodroof , interpretado por ele, passará por muitas mudanças. Ron é um cowboy texano, homofóbico e trambiqueiro. Em 1985, quando a AIDS era uma sentença de morte e vista com enorme preconceito (não que hoje o preconceito tenha acabado), o vírus HIV é detectado no protagonista. Com a saúde muito debilitada, ele recebe um desesperador prognóstico: tem apenas 30 dias de vida.
A primeira reação de Ron é a incredulidade, afinal achava que a AIDS era uma doença exclusiva de homossexuais. Rejeitado por seus “amigos” tão homofóbicos quanto ele próprio e recusando-se a aceitar sua condição, Ron se nega a frequentar grupos de apoio e passa algum tempo mergulhado em drogas e depressão. Porém, aos poucos acaba aceitando e buscando tratamento.O problema é que nos EUA a droga AZT estava sendo testada e Ron não era um dos selecionados para receber a medicação. Ele, então, se recusa a apenas esperar a morte certa e busca desesperadamente por tratamento. Sem meios de conseguir o AZT, acaba descobrindo medicamentos alternativos através de um ex-médico (Griffin Dunne) que, com o diploma cassado, reside no México. A partir daí, Ron passa não só  a se auto medicar, como vê uma oportunidade de ganhar dinheiro vendendo o medicamento para pacientes nos EUA.
Em seu “negócio”, Ron acaba conseguindo um parceiro inesperado: Rayon (Jared Leto), um travesti, também aidético, que lhe consegue mais clientes. O empreendimento se transforma em um clube de compras e fornecimento de remédios não autorizados, em que Ron viaja até lugares como Holanda e Japão para conseguir seus produtos.
Jennifer Garner interpreta uma médica no filme
O mais bacana sobre Clube de Compras Dallas é que através dessa trama, o filme poderia apelar para o sentimentalismo e o dramalhão, mas não o faz. O filme, na verdade, funciona como uma dura critica a FDA (agência americana reguladora de remédios e alimentos) e a industria farmacêutica, que lucra enquanto os pacientes morrem, vendendo o AZT, um medicamente que não era a melhor opção, ao menos não sendo ministrado sozinho e negando aos doentes a chance de utilizar outros medicamentos, que poderiam ser mais eficazes.
O filme também acerta na sutileza ao construir seus personagens. Ron é um tipo detestável, retrógrado e preconceituoso. Uma opção muito interessante de mostrar esse protagonista, fugindo do obvio, que seria colocá-lo como frágil e digno de pena. Ao sentir na pele o preconceito que ele próprio destilava e também através da convivência com Rayon, inicialmente um mal necessário para ele, o cowboy acaba mudando, assim como seu clube de compras, que de uma necessidade egoísta se transforma em uma luta por mais dignidade para todos os aidéticos. Entretanto, essa mudança não ocorre de uma hora para outra, não é mágica, até o final do filme veremos resquícios do Ron machão e grosseiro do inicio do filme.
Como comentei no inicio, McConaughey e Leto são a grande força de Clube de Compras Dallas. Força que vai muito além da drástica mudança fisica, embora  tanta dedicação e entrega também seja impressionante. Jared Leto perdeu 13kg e  McConaughey, 19. Leto, um ator de que gosto a um bom tempo, é extremamente sutil em sua composição de Rayon, passando longe de qualquer clichê ou estereótipo de homossexual. Rayon, ao contrário de Ron, é adorável, delicado, divertido, sempre respondendo às ofensas do protagonista com bom-humor. Matthew McConaughey também é sutil ao cria um Ron fascinante, cheio de nuances e contradições, o tipo de personagem que você fica sem saber muito bem se gostaria de dar um abraço ou uns tapas. O modo como, pouco a pouco, vai se suavizando, amadurecendo, deixando sentimentos egoístas de lado e passando a se preocupar com os outros, é simplesmente brilhante.
Clube de Compras Dallas se mostra uma bela história de perseverança, onde o diretor Jean-Marc Vallée e os roteiristas Melisa Wallack e Craig Borten acertam em optar por um tom sóbrio, em vez de cair no melodrama.
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Dri Tinoco

Formada em Letras, apaixonada por Literatura e viciada em Cultura Pop. Tornou-se irremediavelmente fã de Jaspion aos 3 anos. Quando criança (e ainda hoje) preferia os filmes do Schwarzenegger a qualquer desenho da Disney e acha que o Viggo Mortensen também é lindo sem a caracterização de Aragorn
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