REVIEW – OSCAR 2016: A GAROTA DINAMARQUESA

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The Danish Girl
Diretor: Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vinkander, Matthias Schoenaerts, Amber Heard, Ben Whishaw
EUA, 2015

Em tempos em que, para horror da família tradicional, muito se fala de transexualidade, contar a história de uma mulher trans em meados do século XX poderia gerar um filme provocador e ousado. Poderia. No entanto, infelizmente, não é o que acontece em A Garota Dinamarquesa. Baseado no romance homônimo de David Ebershoff, a cinebiografia dirigida por Tom Hooper (vencedor do Oscar por O Discurso do Rei) é preguiçosa, covarde e enfadonha.

O filme acompanha o casal de pintores Gerda (Alicia Vinkander) e Einar (Eddie Remayne). Ele já é um sucesso, ela ainda busca encontrar um caminho para consolidar sua arte. Para conseguir completar o retrato de sua amiga, a bailarina Ulla (Amber Heard), que não pode ir posar, Gerda pede ao marido que vista as roupas da moça. Apesar de, mais tarde, a personagem afirmar que sempre foi mulher, esse momento fica parecendo algo como “foi aqui que tudo começou” e, junto com as cenas em que a pintora escolhe roupas e perucas para Einar, acaba colocando Lili Elbe, nome adotado por Einar após se descobrir mulher, como uma espécie de criação de Gerda, quando, na verdade, é de se esperar que Einar fosse a verdadeira criação, que ocultava Lili.

Apesar de Alicia Vinkander ter sido indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, na realidade, o filme gira em torno de sua Gerda e do modo como ela tenta compreender e aceitar a mudança no marido e, mais tarde, o ajuda a passar pelas cirurgias necessárias para ser uma mulher completa. Lili é apenas o aspecto que motiva as mudanças na vida de Gerda e, dessa maneira, fica mais fácil fugir das polêmicas. Como disse no inicio do texto, A Garota Dinamarquesa é um filme covarde, preocupado em não chocar, que passa por questões complicadas, como os “tratamentos” médicos contra a transexualidade ou o preconceito e violência por qual transgêneros passam, são abordadas de modo superficial e leve, preferindo o sentimentalismo aos questionamentos.

Por conta desse ar medroso, o filme tem sido muito criticado. Primeiramente por colocar um homem para interpretar uma trans, mas também por omitir certos tópicos da biografia de Gerda, como a questão de que, através da maneira sensual como ela retratava Lili e outras mulheres, ela provavelmente seria lésbica ou bissexual e sua relação com Lili era de amante, não de esposa sofredora, que é tão amiga do marido, que jamais o deixa. Aliás, os quadros de Gerda eram chamados de Arte Erótica Lésbica, o que também é omitido no filme. Para completar, o filme utiliza um personagem inventado no livro, Hans (Matthias Schoenaerts), um amigo de juventude de Einar, por quem este era apaixonado. Quando Hans aparece não é para jogar luz sobre o passado de Lili/Einar, mas para criar um inútil triangulo amorosa, já que ele se interessa por Gerda.

Além do tom romanceado, outro problema do filme é a horrenda direção de Tom Hooper, com seus objetos desnecessariamente desfocados e enquadramentos tortos, sem nenhuma razão aparente. Sério, a coisa é tão grave, que nos momentos finais, ao invés de estar prestando atenção nos diálogos ou me importando com o destino dos personagens, estava me perguntando: “pra que esse ângulo torto?”. Aliás, em outra cena, Einar conversa com Ulla, que está ensaiando, enquanto ele se encontra no andar superior, cercado por rendas e plumas. A cena inteira, Amber Heard fala de dentro de um circulo de tecidos e penas desfocadas, a cena ficou tão feia que me deu agonia.

No campo das atuações, Eddie Redmayne, indicado a melhor ator, não compromete, mas recorre trejeitos para compor sua personagens, como o corpo sempre curvado, os lábios trêmulos e uma expressão levemente amedrontada. Falta-lhe intensidade nas cenas mais dramáticas. Por outro lado, Alicia Vinkander brilha ao conferir nuances a Gerda e é de longe a melhor coisa no longa.

Por fim, fica a questão: porque desenvolver um filme com tema polêmico, se não se tem coragem de enfocar as polêmicas?

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Formada em Letras, apaixonada por Literatura e viciada em Cultura Pop. Tornou-se irremediavelmente fã de Jaspion aos 3 anos. Quando criança (e ainda hoje) preferia os filmes do Schwarzenegger a qualquer desenho da Disney e acha que o Viggo Mortensen também é lindo sem a caracterização de Aragorn
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