Review – Sem Fôlego

Espalhe!

Wonderstruck
Direção: Todd Haynes
Elenco: Oakes Fegley, Millicent Simmonds, Julianne Moore, Michelle Williams, Jaden Michael, Tom Noonan, Amy Hargreaves, Morgan Turner.
EUA, 2017.

Wonderstruck

Editora: SM

Autor: Brian Selznick

Esse review será um pouco diferente porque abordarei não só o filme “Sem Fôlego” que estreia nessa quinta-feira nos cinemas brasileiros, como também o livro do qual o filme é uma adaptação. Não é necessário separar a análise de ambos, pois o filme, que teve o roteiro elaborado pelo próprio autor do livro, Brian Selznick, é fiel ao livro quase quadro a quadro.

Selznick é o mesmo autor de “A Invenção de Hugo Cabret”, então assim como aquela obra levada ao cinema por Martin Scorsese “Sem Fôlego” é um livro (e um filme) que se destinam a um público infanto-juvenil, mas também agrada qualquer adulto que gosta de uma história bem contada. Tal qual “Hugo Cabret”, “Sem Fôlego” é protagonizado por crianças, duas nesse caso, tem museus, drama, aventura reconstituição fiel de outra época e homenagem ao cinema antigo. Foram exatamente esses elementos que fizeram o diretor Todd Haynes se interessar pela adaptação dessa obra de literatura infanto-juvenil. Haynes é, na minha opinião, um dos grandes diretores de drama da atualidade com filmes como “Longe do Paraíso”, “Velvet Goodmine”, “Carol” e “Não Estou lá” no currículo. Seus filmes sempre são produções impecáveis em termos técnicos, de reconstituição de época e de condução de atores, além de trabalhar de forma sutil temas que poderiam cair no melodrama. As temáticas que geralmente trabalha, porém, faz com que quase sempre seja ignorado no Oscar, somando seus filmes foram 12 indicações, mas ele próprio só concorreu pelo roteiro de “Longe do Paraíso”.

“Sem Fôlego” é “Wonderstruck” no original, o que, não numa tradução literal, mas como já se falava aqui seria algo como o “Gabinete de curiosidades” ou “Quarto das Maravilhas”, são lugares onde, na época das grandes explorações, invasões e colonizações dos séculos XVI e XVII, se colecionava uma multiplicidade de objetos raros dos três ramos da biologia na época: animal, vegetal e mineral; além de construções humanas. Desses gabinetes chegamos as coleções privadas e aos museus. Colecionar objetos é hábito do personagem principal, o menino Ben, e isso é peça central da trama, acaba sendo uma homenagem e uma aula da função de um museu e da curadoria de uma exposição. No Brasil se optou pelo título “Sem Fôlego”, que embora seja um título comum, ao menos tem a ver com a trama que acompanha duas crianças correndo para encontra seu lugar no mundo.

A trama do livro e do filme se desenvolve em duas linhas. Uma na década de 70 em que o garoto Ben Wilson (Oakes Fegley), que ficou surdo após ser atingido por resquícios de um raio não sabe porque sonha que é perseguido por lobos no Lago Gunflint – Minnesota onde mora, após uma tragédia em sua vida ele inicia uma jornada até Nova Iorque em busca do pai que nunca conheceu e a outra se passa nos anos 20 onde uma menina chamada Rose (Millicent Simmonds), surda desde que nasceu, ao menos assim ela lembra, e que vive em Hoboken – Nova Jérsei também parte para Nova Iorque em busca de se aproximar de uma atriz de cinema mudo, Lillian Mayhew (Julianne Moore) de quem ela assiste todos os filmes e tem uma ligação. As histórias vão se desenvolvendo com uma simetria que vai sendo montada aos poucos até fechar a trama no final. E o Museu de História Natural em Nova York é o lugar onde Rose e Bem vão encontrar as respostas que procuram.

No livro a história de Ben é contada em texto, enquanto a trama de Rose é mostrada em belos desenhos preto e branco do próprio Selznick sem diálogos falados, como é o mundo de Rose. Na película, reproduzindo muito bem a Nova Iorque dos anos 70 Haynes dá cores vivas para a história de Ben, que remetem a filmes da década. Já na história de Rose assistimos a uma homenagem aos filmes mudos com todas as características, as interpretações teatrais, a fotografia preto e branco e a trama conduzida por uma fantástica trilha sonora de Carter Burwell colaborador recorrente de Haynes e indicado ao Oscar agora pela trilha de “Três anúncios para um crime”. Não há quase nenhuma diferença no roteiro da película em relação ao livro, apenas alguns elementos da busca de Ben que Selznick optou por cortar no roteiro do filme. A parte de Rose é praticamente a transposição fiel das imagens do livro.

Rose na arte de Selznick no livro.

Quando fomos chamados para a cabine de exibição de “Sem Fôlego” e vi que era baseado em um best-seller, achei que estávamos sendo chamado para ver algo como “Extraordinário” que é melodrama para emocionar quem se emociona fácil, mas numa trama mal conduzida, porém, quando vi o nome de Haynes vi que não podia ser naqueles moldes. Quando recebi o livro e vi que era do autor de “Hugo Cabret” também vi que não era uma obra infantil como qualquer outra. Há momentos de didatismo na explicação da trama, principalmente no final, mas sendo um filme também para crianças não é inesperado que tenha isso, mas o que mais curti é o modo natural que a trama dramática envolvendo surdez e morte é contada e ainda com toda uma produção que agrada qualquer fã de cinema como eu. É um filme que toda mãe e pai fã de cinema deve colocar os filhos para verem e se iniciar na sétima arte. Algumas pessoas não estão gostando exatamente por não cair no dramalhão fácil, estão dizendo que emociona pouco e até que as crianças não seguram o filme, na verdade é porque estão mais acostumados com obras como “Extraordinário” ou “A Teoria de Tudo”.

O elenco está muito bem, com maior destaque para Millicent Simmonds, jovem atriz surda e muda que interpreta Rose, ela foi indicada por esse papel ao Critics’ Choice Award de Melhor Jovem Ator ou Atriz que perdeu para Brooklynn Prince elogiadíssima em “Projeto Flórida” que conferirei em breve. Interessante que num ano que falaram muito de “lacração” em filmes, não estão falando tanto da representatividade que é colocar uma jovem atriz surda e muda para co-protagonizar um filme infanto-juvenil. Esse filme precisa ser exibido para crianças surda e muda. O resto do elenco também está muito bem. Entre os adultos Julianne Moore brilha em dois papeis e Michelle Williams aparece pouco, mas o suficiente para encantar como a mãe de Ben.

Recomendo então o filme e o livro. Para qualquer um que ler vai ter muito aprendizado sobre museus, cinema e ainda questões como a surdez, além de divertir. Selznick chama atenção para algo que nunca havia pensado, na época do cinema mudo pessoas com surdez e pessoas com audição perfeita podiam ir ao cinema juntos, então o filme toca um pouco no impacto da vinda do cinema falado sobre esse público. Por fim, sobram referências a cinema, poesia, literatura e música no livro e no filme como a “Space Oddity” de David Bowie e até a frase de efeito mais destacada do livro, que fazem muito para propagandear as adaptações de Best-sellers atualmente, “Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas”: é uma referência ao grande Oscar Wilde.

Quatro pinguins para o livro e para o filme!


Espalhe!

Dre Tinoco

Geográfo, viaja tanto que quase não tem tempo para escrever nessa josta. Mas, sempre dá um jeito de ver as postagens com a Natalie Portman

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *