VIGGO MORTENSEN FALA A ESQUIRE SOBRE CARREIRA, FAMA, DINHEIRO E MORTE

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A Esquire fez um perfil do Viggo Mortensen, em que a jornalista Lisa DePaulo passou um dia com o meu muso <3, para falar de Captain Fantastic, filme que protagoniza e que foi bastante aplaudido em Cannes e rendeu por lá o prêmio de melhor diretor, para Matt Ross. Normalmente, eu colocaria aqui as fotografias feitas por Marc Hom e apenas linkaria a matéria original, mas eu gostei tanto do artigo, que é cheio de reflexões (e meio triste também), que resolvi traduzi-lo para compartilhar com vocês. Vou avisando que meu english não é tão fodão assim, então já peço desculpa antecipadas por qualquer alguma imprecisão. Os [] são para marcar algumas explicações minhas

[chamada na capa do site] Como Viggo Mortensen domina a arte de está pouco se fodendo?

viggo mortensen

Por que Viggo Mortensen está fora dos padrões?

Vários grandes sucessos, uma indicação ao Oscar, olhos azuis penetrantes – outra vez, quem é esse cara?

Por Lisa dePaulo

Fotografias por Marc Hom

25 de maio de 2016

Este verão, o essencialmente anti-Hollywood Viggo Mortensen estrela um filme sobre um pai de seis filhos que rejeita o mundo para criar as crianças completamente fora dos padrões. Quanto este personagem parece o próprio ator? Vamos começar com seu flip phone [é como são chamados esses celulares mais antiguinhos de abrir e fechar].

Viggo Mortensen chegou trazendo panquecas. Estamos na calçada no pequeno aeroporto de Siracusa, Nova Yorke, em um dia verdadeiramente melancólico (mesmo para os padrões Siracusa), e nos de segundos que ele saltou do Ford alugado, eu aprendi duas coisas sobre ele: ele é o tipo de cara que te busca no aeroporto, e é o tipo de cara que traz presentes. Panqueca é uma iguaria em Nova York. “Você gosta de xarope?”. Porque ele me trouxe um pouco também. Ele preparou uma bolsa de presentes.

“Você pode fumar no carro”, Mortensen diz, gesticulando com seu latente espírito americano. “Há um cinzeiro.” É um copo de papelão do aeroporto Best Western, onde ele obteve o seu café esta manhã, que ele preencheu com uma polegada de água. Para nós.

Ele é sempre tão cavalheiresco?

Ele sorri. “Eu tento”.

Clooney, digo-lhe, provavelmente nunca pega alguém no aeroporto.

Ele ri. “Ele provavelmente é muito mais ocupado do que eu”.

viggo mortensen entrevista

Estamos aqui para falar sobre o novo filme de Mortensen, um drama sobre uma família surpreendente e subversiva, chamado Captain Fantastic, e nós estamos aqui, no norte de Nova Yorke, porque Mortensen está dando um tempo em sua vida em Madri, para cuidar do seu pai, que está morrendo. Para acompanhá-lo até o fim, da mesma forma que fez com sua mãe, Grace, que faleceu a um ano atrás. Grace era uma santa. Seu pai, também chamado Viggo Peter Mortensen, nem tanto. Mas, você faz o que tem que fazer. O pai está em Watertown, a uma hora e meia do aeroporto de Siracusa, onde Mortensen frequentou a escola e para onde estamos indo agora.

E, então, nós dirigimos. Ou, quero dizer, ele dirige. Pelas próximas 8 horas, pelas cerca de 250 milhas, acima e em torno de Watertown, através de Adirondacks, mas não o bastante para o Canadá — embora ele pergunte se eu trouxe meu passaporte — com paradas periódicas em lanchonetes, lagoas, cachoeiras, lagos, o túmulo de sua mãe e, finalmente, a fazenda do seu pai. Viggo adora dirigir. Às vezes ele dirige através do país, só por ir. E ele alugou um Ford Fusion. “Eles sempre querem me dar uma porra de um carro chique”. Mas ele não quer um carro chique. Às vezes, espontaneamente, encostou ao lado da estrada por uns bons cinco ou dez minutos para terminar uma linha de raciocínio — sobre vida ou morte ou demônios ou medos ou seu time de futebol favorito na Argentina, o San Lorenzo. Sobre o tempo nos confins da Nova Zelândia quando ele esfolava, cozinhava e comia sua própria refeição (“Era lá”). Sobre o quanto ele ama o militante chomskiano que interpreta em Captain Fantastic, pai de seis filhos, que decide criá-los no deserto isolado do noroeste do Pacífico. Nós poderíamos ter ido direto para Watertown e ficado lá, e poderíamos fazer isso bem rápido, mas Mortensen, suas duas mãos apoiadas suavemente na parte inferior do volante, não gosta de dirigir rápido demais. Ele não quer perder nada.

Há precisamente duas pessoas famosas que já saíram de Watertown. Um deles está morto (o escritor Frederick Exley), e o outro estrelou a trilogia O Senhor dos Anéis. Duas horas e meia em nossa jornada, Mortensen e eu paramos para um café em um bar que ele gosta, pois costuma ir lá com sua mãe, quando era adolescente. O lugar estava lotado com uma multidão para o almoço. Nós sentamos no bar, e ninguém parece reconhecê-lo, nem mesmo a bonita bartender com quem ele conversou sobre o basquete de Siracusa. Este é um feito notável para alguém como ele . Mas, ele não gritar “Eu sou famoso.” Além disso, se veste como todos ao seu redor, com uma camisa de flanela xadrez, calça jeans genéricos (não são nem mesmo Levi’s), tênis pretos surrados, que ele comprou na Dinamarca um par de décadas atrás. (Mortensen não liga muito para pompa, ele tem um flip phone!) Finalmente, quando nós estamos andando para fora da porta, ouvimos: “Ei, está vindo para a reunião?”

Mortensen se vira. “Hey, Robin”, diz ele para a garçonete. Eles foram à escola juntos. “Como está sua família?” Ela diz a ele onde a reunião de classe é. É em julho, são quarenta anos da formatura. Ele só poderia fazer isso.

Peço a Robin me conte como Mortensen era na escola. “Ele era muito quieto”, ela me diz. “Ele era um loiro, bonito, isso é o que ele era.”

Mortensen nunca foi como os outros meninos e meninas. Ele não está na Us Weekly [revista de celebridades], saindo do Starbucks, com a mão cobrindo seu rosto. Não em Lake Como [lago na Lombardia, Itália] com George e Amal [George Clooney e a esposa]. Quando ele precisa ir no tapete vermelho, você não vai encontrá-lo em um smoking Dior. (Ele usa principalmente algo clássico. Uma vez, quando perguntado quem ele estava usando, Mortensen forneceu o nome Bambino Veira e assistiu com espanto os membros da imprensa de Hollywood escreverem obedientemente. Veira foi um jogador de futebol na Argentina.) Ele vive em Madri, e trabalha quando quer trabalhar, fazendo o que sente vontade de fazer. Uma vez, foi erroneamente relatado (e repetido diversas vezes, o que o deixou puto, e ele não é um cara que fica puto, exceto com a guerra no Iraque) que estava desistindo de atuar, porque ele disse que queria fazer uma pausa. Ele só queria fazer uma pausa. Dar a porra de uma pausa.

viggo mortensen entrevista

Mortensen tem cinquenta e sete anos e tem estado nessa profissão desde 1982 – escolhendo se tornar ator aos vinte e três anos de idade, depois de assistir a muitos filmes e pensar, eu posso fazer isso. Suas profissões anteriores incluíram dirigir um caminhão, entregar flores e carregar navios na Dinamarca. Durante anos, ele viveu de show para show, conferindo por conferir, principalmente sem grana. Provavelmente não ajudou que, por um capricho, ele tenha deixado L. A. e se mudado para Idaho. Ele apoiou sua carreira de ator por anos como garçom e servindo mesas. Então, ele tem pares de intervalos. Woody Allen o colocou no elenco de A Rosa Púrpura do Cairo, mas a sua performance foi deixada no chão da sala de edição. O mesmo vale para Armas e Amores, com Goldie Hawn. Finalmente, ele foi escalado como um jovem amish A Testemunha, com Harrison Ford, e o público pode colocar os olhos sobre ele pela primeira vez. Mas, isso era 1985. Seriam mais dezesseis anos e muitos papéis (principalmente obscuros), antes que ele adquirisse verdadeira fama. Foi oferecido a ele o papel em Senhor Anéis somente quando um outro ator, Stuart Townsend, largou no último minuto, e ele aceitou apenas porque seu filho, na época com onze anos de idade, Henry, tinha lido (e amado) a trilogia de Tolkien trilogia e convenceu-o a fazê-lo. Bilheteria esmagadora, todos os três, e fizeram-no extremamente famoso (por um tempo) e rico.

Então, ele fez algo verdadeiramente bizarro para os padrões de Hollywood. Ele tinha o mundo nas mãos, com muitos papeis para escolher – coisas de grandes estúdios, o tipo de coisa para Clooney, coisas de cachê. Ele recusou tudo isso, optando fazer o que ele queria fazer, e pouco disso era lucrativo. “Quero dizer, quanto caralho de dinheiro você precisa?”, ele pergunta. Ele usou um pouco do espólio de Senhor dos Anéis para iniciar sua editora, sim, uma editora; ela é chamada Perceval Press, conforme um dos cavaleiros de Arthur da Távola Redonda – que iria publicar poetas e outros escritores que talvez não pudessem ter seus livros publicados de outra forma, e fazê-lo sem ter um “compromisso”. Ele também pode dar ao luxo de gastar tempo com seus outros interesses, escrever poesia, tirar fotografias, pintura.

Ainda assim, não é como se ele tivesse parado de atuar. É que os papéis que ele pegou foram principalmente em filmes independentes ou filmes do David Cronenberg – sombrios complicado, assuntos intelectuais que não tem grande procura no multiplex local. Isto levou a performances espetaculares em clássicos como Marcas da Violência, no qual ele interpreta um dono de restaurante no meio do nada que tem (surpresa!) um passado obscuro e misterioso, e Senhores do Crime, um negócio incomodo sobre a máfia russa que lhe rendeu sua primeira e única indicação de Melhor Ator ao Oscar e dispõe de nudez em uma briga de facas, que poucos homens podem recordar sem pestanejar (ele perdeu para Daniel Day-Lewis, por Sangre Negro). E agora há Captain Fantastic, dirigido não por Cronenberg, mas por um ator-escritor-diretor chamado Matt Ross, com Mortensen desempenhando um cativante, apaixonado, complicado – tudo bem, esquisito – pai que tenta proteger seus filhos das pressões de uma sociedade conformista, mercantilizada. Há muita caça, gore e kumbaya, e há mesmo uma longa e persistente cena de Mortensen, mais uma vez, completamente. Ele nunca teve um problema em deixar tudo a mostra; como sua capacidade de falar oito línguas, ele realmente não entende por que as pessoas fazem disso uma grande coisa. Como seu personagem no filme diz: “é só um pênis. Todo homem tem um.”

viggo mortensen photoshoot

Quatro horas de nossa viagem, paramos em uma cachoeira, e o sol está quebrando através de um céu nublado.

“É simplesmente lindo, não é?” ele diz.

Seu telefone toca. É enfermeira de seu pai.

Hoje é apenas a segunda vez, desde que ele voou da Europa de volta para os Estados Unidos, várias semanas atrás – “quando parecia que apenas uma questão de dias” – para seu pai partir, que ele deixara a casa por mais de algumas horas. (“Ele é um filho da puta resistente”, disse ele sobre o pai. “Ele se recuperou”). Levou um tempo para encontrar enfermeiros em quem podia confiar, mas ele contratou uma para hoje. Ela disse-lhe que há medicamentos que ele precisava buscar. Deixamos a cachoeira calma e dirigimos para a parte comercial da cidade, parando em um lúgubre estacionamento em Watertown.

“Tudo bem se eu entrar sozinho?” ele pergunta. Ele não precisa dizer que é uma questão de dignidade. Seu pai é acamado. Mortensen dorme no quarto ao lado, com um monitor de bebê. Ele realmente não preciso de dizer mais.

Ele sai da loja e discretamente carrega sua compra para o porta-malas. E nos dirigimos para a fazenda de seu pai. Era sua mãe, ele me conta, quem era de Watertown. Ela conheceu seu pai em uma viagem para a Noruega. “Little Viggo”, como era chamado – os europeus não usam júnior – nasceu em Nova York, o primeiro de três filhos. Mas, quando ele ainda era um bebê, seu pai, que era um fazendeiro na Dinamarca – conseguiu um emprego com uma empresa que o enviou para a Argentina para gerir explorações avícolas. Quando Mortensen tinha onze anos, seus pais se divorciaram e as coisas ficaram feias. Grace levou três filhos de volta para os Estados Unidos, para Watertown. Viggo, o pai, passou à uma série de esposas e outras mulheres. Então ele decidiu que também iria se mudar. . . para Watertown. Ele disse que o lembrava a Dinamarca; Mortensen sabe que tinha mais a ver com a torturar sua mãe.

Agora seu pai sofre de demência. Sua mãe tinha demência, também. Viggo tem medo de que ele também vá ter demência um dia. Ele tem pensando em testar seus genes. Mas, então o quê? Estamos dirigindo por uma estrada de um país lindo, com fazendas de ambos os lados. Algumas dessas terras até recentemente pertenciam a seu pai. Mas há alguns meses atrás “ele decidiu que estava sem dinheiro. Ele não estava. Eu disse ‘Você tem toda esta terra, venda-a, se você acha que está sem dinheiro.’ E ele o fez “. Lotes de terras agrícolas. “Então, uma noite ele me chama e diz: ‘Alguém está na minha propriedade, eu vou atirar neles.’ Eu disse, ‘Você não pode atirar neles, porra, você não é mais dono disso!’ “

Na estrada, seu telefone toca novamente, desta vez uma ligação de sua namorada, na Espanha. Mortensen foi casado uma vez, com a cantora de punk-rock Exene Cervenka, a mãe de seu filho de vinte e oito anos de idade, Henry Blake Mortensen, ator e músico. Desde 2009, ele foi viver em Madri, com a atriz Ariadna Gil. Por que Madri? “Porque eu me apaixonei e ela morava lá.” (Depois de se formar pela Universidade de St. Lawrence, em 1980, não muito longe de Watertown, ele se mudou para a Dinamarca e ficou lá por causa uma mulher. Ele parece fazer muito para as mulheres, e sua poesia, crua e intensa, é cheia de melancolia. Ele teve seu coração partido? “muitas, muitas vezes”, diz ele, dando uma longa tragada no cigarro.)

Nós andamos de cabeça baixa pelo caminho de cascalho para a fazenda de seu pai. “Ah, que bom”, diz ele. Ele está feliz que os narcisos que plantou já estão florescendo. Há uma velha banheira no quintal (eles tiveram que substituí-la por uma que pudessem levantar seu pai nela). Eu espero no carro. Cerca de quinze minutos depois, ele retorna. Ele parece um pouco abalado. Pede desculpas por ter demorado tanto. Em seguida, diz: “Venha cá. Vou tentar mostrar-lhe um pouco do meu pai. Ele fez este lugar para ficar com seus amigos.” Ele me leva em um pequeno celeiro vermelho na propriedade e abre a porta estridente.

Oh, meu Deus.

Há peles de animais em todos os lugares. Ursos com cabeças no chão. Alces nas paredes. Chifres em todos os lugares.

“Sim, esta é a sua caverna de homem”, diz ele.

E de repente estamos rindo histericamente, até doer.

Nós decidimos almoçar tarde, pegando o jantar à beira do Lago Ontário, onde ele pede um sanduíche de atum. No caminho, ele me fala de sua “obsessão” (sua palavra) com a morte.

“Eu penso sobre a morte o tempo todo”, ele me diz quando nós dois acendemos mais um cigarro, ele inclinando-se para meu fogo. “Quero dizer, quando eu era um garotinho, algumas das minhas primeiras memórias são de acordar e pensar, decepcionado, eu vou morrer”. Quando criança? “Eu acho que vivendo no campo, eu posso ter aprendido sobre isso mais cedo. Essa ideia da mortalidade, sabe? Logo que percebi que os animais vão morrer, portanto, eu morrerei….”

viggo mortensen

Isso deve ser deprimente. “Não, não fico deprimido, fico puto! É realmente uma bobagem. De quem foi a ideia [morte]?” Nós rimos. Ele exala. “Eu ainda penso na morte quando acordo. É a primeira coisa que vem a minha mente. Mas eu acho que isso é o que me faz querer experimentar coisas, sabe? Quer se trate de escrever ou pintar ou qualquer outra coisa. Para registrar o que está acontecendo. E acontece rápido. ” Isso ajuda a explicar o caderno com capa de couro desgastado que ele carrega para todos os lugares. Ele quer “registrar a vida.”

No jantar, ele pergunta as horas. (Ele não usa um relógio.) “É melhor eu levar você de volta”, diz ele. Noventa minutos depois, nós paramos nos portões de embarque do aeroporto. Eu começo a dizer adeus. Mas não, Mortensen está vindo comigo. No início do dia, em nossos primeiros dez minutos juntos, eu mencionei que havia esquecido minha carteira de motorista e que algum drama seguiu-se no aeroporto de LaGuardia. Ele está vindo comigo para se certificar de que eu chegaria no meu voo. Ele acha que talvez conhecesse um dos agentes da TSA, mas quando chegarmos à segurança, não conhece ninguém. Além disso, eles não o conhecem.

A policial da TSA quer saber o que eu estava fazendo em Siracuse por apenas oito horas. Ela pensa que eu sou traficante de drogas. Com isso, Viggo começa a rir. Digo a ela que sou escritora e vim entrevistar uma pessoa. “Hã.” Ela olha Mortensen de cima a baixo. ” Você famoso ou algo assim?”

Do outro lado da corda de segurança, Mortensen não poderia estar mais feliz.

Artigo original: http://www.esquire.com/entertainment/movies/a45212/viggo-mortensen-profile/

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Dri Tinoco

Formada em Letras, apaixonada por Literatura e viciada em Cultura Pop. Tornou-se irremediavelmente fã de Jaspion aos 3 anos. Quando criança (e ainda hoje) preferia os filmes do Schwarzenegger a qualquer desenho da Disney e acha que o Viggo Mortensen também é lindo sem a caracterização de Aragorn

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