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Édouard Louis, Elena Ferrante e o Olhar Masculino

Recentemente, o escritor francês Édouard Louis deu uma declaração um tanto questionável: ele afirmou que Elena Ferrante escreve “romance para adolescentes”. Para quem caiu de paraquedas, Louis é o nome forte da autoficção francesa contemporânea (autor de O Fim de Eddy), e Ferrante é a misteriosa e aclamada autora da Série Napolitana.

Argumento fraco

Antes de mais nada: não há problema algum em não gostar de Elena Ferrante, Édouard Louis ou de qualquer outro autor. O problema real reside em como a crítica é construída. Criticar uma obra baseando-se no público ao qual ela supostamente se destina — chamando-a de “coisa de adolescente” ou “coisa de criança” — é um argumento intelectualmente preguiçoso. A faixa demográfica de uma obra não define sua qualidade estética ou profundidade temática.

A perspectiva feminina é juvenil

Mas vamos falar o que realmente está em jogo aqui. Elena Ferrante é literatura juvenil? Acho que podemos concordar que não. Mas ela é, sim, literatura de mulher. É uma obra centrada na perspectiva feminina, na amizade entre mulheres, no ambiente doméstico e nas complexidades do corpo e da mente feminina.

O que acontece — e acontece com frequência — é que muitos homens, por uma misoginia ativa ou um preconceito estrutural inconsciente, tendem a diminuir tudo o que cerca o universo feminino como assuntos de “menor importância”, fúteis ou, como Louis preferiu, “coisa de adolescente”, perto da suposta universalidade e importância de temáticas masculinas.

O gosto é uma construção

Nossos gostos não são inerentes; eles são construídos. Se você passa a vida consumindo apenas arte produzida por homens — seja na música, na literatura ou no cinema — é óbvio que terá dificuldade em se conectar com outros olhares.

Não é uma questão biológica de “ser homem”, é uma questão de hábito. Se você não tenta sair dessa bolha ativamente, procurando autoras, diretoras e artistas mulheres, sua percepção da realidade continuará limitada. No fim das contas, quem fica com o repertório empobrecido é você.

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