Existe uma linha muito clara entre o jornalismo investigativo, a denúncia legítima e o que estamos presenciando no ecossistema digital: a transformação de crimes, de violência, de abusos, em entretenimento. O que deveria gerar indignação e mudança estrutural está sendo mastigado para gerar cliques, visualizações e, no final das contas, lucro em cima do sofrimento alheio.
Bingo do abuso
Não muito diferente da mídia sensacionalista tradicional, em vídeos no youtube e tiktok, podcast, carrosséis no Instagram ou “threads” no Twitter, o comportamento é o mesmo: os filhotes de Sonia Abraão tratam casos reais como se fossem temporadas de uma série de suspense ou uma fofoquinha da vida de celebridades.
Recentemente, acompanhamos uma explosão de conteúdos sobre os casos de Sean “Diddy” Combs e Jeffrey Epstein onde o foco não era a engrenagem que permite gente poderosa abusar, que permite tráfico humano, mas sim um “bingo do abuso” ou do abusador, tentando adivinhar quais dos frequentadores das festas do Diddy participariam também das festas privadas, quem sabia do que, quem foi mencionado nos arquivos epstein, e o mais cruel de tudo, quem seriam as vítimas, o que é extremamente insensível e irresponsável.
Aliados a isso, surgem também as teorias da conspiração, no caso Epstein tem muito disso. Surgiram até documentos falsos, emais falsos. Teorias sobre canibalismo e etc, como se o que está nos documentos oficiais não fosse ruim o suficiente. Mas as pessoas precisam alimentar aquelas teorias conspiratórias de como hollywood é satânica, como se a gente não visse abuso sendo praticado por aí, nos mais variados locais, inclusive bem longe do luxo ou glamour hollywoodiano. Essas conversas cruzadas só tiram o peso das denúncias reais acabam dispersando a indignação pública que deveria ser bem maior do que está sendo no momento
Ouvi dizer…
Ano passado, no lado Kpopeiro da internet, um podcast americano chamado Above The Influence viralizou por “expor” a podridão da indústria do K-pop. Entre risos e conversas descontraídas, os hosts apontaram nomes de peso na indústria, como Jennie, do BLACKPINK, e IU, como prostitutas e ainda afirmavam que todas, TODAS, as celebridades coreanas, mesmo as mais famosas e ricas são prostitutas. Tudo baseado em em depoimentos de supostos amigos ou conhecidos de amigos que conhecem a indústria de dentro.
Eu não tenho dúvida que a indústria do KPOP, assim como Hollywood, é podre — a gente sabe que é. Há relatos de idols, ex- idols que comprovam diversos aspectos negativos. O problema é transformar coisa séria em tópico de fofoca e motivo para fazer stutshaming.
Boatos idênticos perseguiram as estrelas da era de ouro de Hollywood, as Chacretes, as Panicats e cantoras pop por décadas. E eu não duvído que haja esquemas de prostituição na industria do entretenimento, mas a questão é que o foco está sempre em atacar a moralidade da mulher, desqualificando seu trabalho, suas conquistas, e não a podridão do sistema que a cerca.
O que importa é o engajamento
Tratar assuntos como estupro, pedofilia e tráfico humano entre risos ou “teorias de conspiração” é a desumanização final das vítimas. Quando a tragédia vira entretenimento, paramos de buscar soluções e passamos a esperar pelo próximo “exposed”.
A desculpa desses criadores de conteúdo é sempre a mesma: “estávamos apenas comentando o que ouvimos”, “estou apenas opinando”. É a isenção de responsabilidade. São pessoas que pouco se importam com as vítimas, com possíveis punições para os culpados, o que importa é o engajamento. E pra mim, essa é uma das formas mais baixas de entretenimento.


