Kenji Ohba

Blog do Marc – Minhas impressões sobre Battle Fever J e um adeus a Kenji Ohba

Kenji Ohba faleceu ontem, 06 de maio

Venho assistindo às primeiras séries da franquia Super Sentai e, sempre que termino uma delas, costumo escrever no site as minhas impressões. Na última semana concluí Battle Fever J e, como de costume, já me preparava para escrever um texto sobre.

Antes disso, porém, fiquei sabendo do falecimento do grande Kenji Ohba pelas redes sociais. Em Battle Fever J, Ohba interpreta o herói Shiro Akebono, o Battle Kenya, o personagem mais carismático.

Por isso, este texto acaba sendo não apenas sobre a série em si, mas também sobre a importância que Kenji Ohba teve para mim sendo eu fã de tokusatsu. Sua presença marcante, seu carisma e sua contribuição para o gênero fizeram dele uma figura inesquecível para toda uma geração de fãs do gênero.

Battle Fever J foi uma produção fundamental para solidificar a franquia Super Sentai, que só viria a ser interrompida agora em 2026 pela Toei Company. Exibida no Japão em 1979, a série marcou a segunda parceria entre a Toei e a Marvel Entertainment, após a adaptação de Homem-Aranha para o universo do tokusatsu.

Após o sucesso da versão japonesa do aracnideo, a Toei e a Marvel decidiram focar em uma versão do Capitão América, mas o projeto evoluiu para um grupo temático baseado em danças e nações do mundo. A trama acompanha a equipe Battle Fever J, criada para combater a organização criminosa Egos, um grupo internacional que busca dominar o mundo através do terror e da espionagem. Um dos elementos mais curiosos da série é justamente sua proposta “multicultural”: cada integrante representa um país/cultura diferente — ainda que todos interpretados por atores japoneses. Assim, Battle Japan, Battle France, Battle Cossack, Battle Kenya e Miss America formam um time internacional que enfrentava o inimigo em meio a golpes de artes marciais, poses extravagantes e passos de dança, refletindo claramente a influência da febre das discotecas que dominava o fim dos anos 70. O segundo Battle Cossack, inclusive, é quase um paradoxo ambulante: apesar de representar a Rússia, aparecia em trajes civis vestido como um típico cowboy do Velho Oeste americano.

Mas o que realmente transforma Battle Fever J em um marco histórico para o gênero é a introdução definitiva do conceito da equipe colorida pilotando um robô gigante — elemento que se tornaria a principal marca registrada da franquia Super Sentai. Embora o gênero Sentai tenha começado com Goranger (1975), Battle Fever J foi a primeira série a introduzir um robô gigante tripulado. O Battle Fever Robo foi criado claramente sob influência do sucesso do Leopardon, o robô gigante introduzido na adaptação japonesa do Aranha. O impacto de Leopardon foi tão grande junto ao público que a ideia acabou incorporada de vez às produções seguintes da Toei. A partir dali, os combates entre os robôs e monstros gigantes passaram a se tornar parte essencial da identidade de Super Sentai, estabelecendo uma tradição que atravessaria décadas.

Os figurinos também são um espetáculo à parte. O visual de Miss America, por exemplo, chama atenção: inspirado nas heroínas dos quadrinhos americanos, o uniforme trazia peruca loira, e pernocas à mostra, algo que dar à personagem um ar de pin-up misturada com super-heroína televisiva.

As máscaras e uniformes do grupo como um todo combinavam elementos de estética militar, super-heróis ocidentais e referências culturais dos países que cada integrante representava. O resultado era um visual excêntrico, colorido e extremamente particular, bastante diferente da identidade estética que as produções posteriores da franquia adotariam.

Battle Fever J é uma série divertida e historicamente importante por introduzir a fórmula cinco heróis + robô gigante, que seria aperfeiçoada ano após ano até se tornar o padrão definitivo da franquia Super Sentai. Foi essa estrutura que, durante décadas, dominou as manhãs de domingo da televisão japonesa e marcou gerações. Mesmo com a interrupção recente da franquia, essa essência ainda permanece viva — algo que pode ser visto no atual Gavan Infinity. Assistir Battle Fever J hoje é observar o momento em que uma identidade começou a tomar forma: ainda experimental, cheia de exageros e ideias curiosas, mas já carregando os elementos que transformariam Super Sentai em um dos maiores fenômenos da história do tokusatsu.

Agora, falemos de Kenji Ohba, um dos nomes mais icônicos da história do tokusatsu. Antes de se tornar protagonista, Ohba trabalhou como dublê e integrante da Japan Action Club (JAC), grupo fundado pelo lendário Sonny Chiba. Sua habilidade atlética, o carisma diante das câmeras e a enorme experiência em cenas de ação rapidamente o transformaram em um dos artistas mais respeitados do gênero.

Diferente de muitos atores da época, que dependiam bastante dos suit actors para as sequências mais perigosas, Ohba frequentemente realizava suas próprias manobras. Essa dedicação dava às cenas uma energia física muito própria, tornando seus personagens incrivelmente convincentes em combate.

Foi justamente graças a esse diferencial que ele acabou escolhido para interpretar o protagonista em Uchuu Keiji Gavan , produção que inaugurou a franquia Metal Hero e ajudou a consolidar uma nova geração de protagonistas vindos diretamente do universo dos dublês. A armadura prateada e reluzente de Gavan tornou-se um dos visuais mais icônicos do tokusatsu nos anos 80, enquanto Ohba virou referência absoluta para fãs do gênero. Antes de Gavan ele estrelou em Battle Fever J como Battle Kenya e em Denshi Sentai Denziman (que vou assistir agora) como Denzi Blue.

Battle Fever J e Denziman nunca chegaram a ser lançadas oficialmente no Brasil, e Gavan acabou vindo para cá relativamente tarde. Por isso, minha primeira lembrança de Kenji Ohba nem foi como Gavan, mas provavelmente em Jiraiya, O Inimigo de Toha, episódio 27 de Jiraiya – O Incrível Ninja, interpretando o antagonista do herói. Ohba rouba a cena ao dar uma verdadeira lição em Jiraiya, demonstrando toda sua presença e habilidade física.

Mais tarde veio Sharivan, sequência direta de Gavan, onde o policial espacial aparecia ocasionalmente como mentor do novo herói. Na época, porém, a Rede Bandeirantes pegava muito mal na minha região, então não pude acompanhar. Só anos depois, na reprise exibida pela Record, consegui finalmente assistir ao excelente episódio final em que Sharivan e Gavan unem forças para destruir a organização MAD. Já Gavan chegou ao Brasil apenas em 1991, pela TV Globo, com o título Space Cop. Os vinte primeiros episódios foram exibidos na Sessão Aventura, mas depois a série acabou transferida para as manhãs do Xou da Xuxa e terminou sem reprises. Como eu estudava nesse horário, nunca consegui acompanhar a série inteira na televisão. Só muitos anos depois, graças à internet, pude finalmente assistir tudo completo.

Também foi interessante reencontrar Ohba em Kamen Rider Black RX, desta vez interpretando um homem comum. Mesmo assim, sua presença em cena continuava marcante — aquele tipo de ator que imediatamente chama atenção de quem cresceu assistindo tokusatsu.

Anos mais tarde, eu ainda assistiria sua participação em Kill Bill: Volume 1. Ohba interpreta o divertido assistente de Hattori Hanzo, personagem vivido justamente por seu antigo mentor, Sonny Chiba. É uma participação pequena, mas extremamente simbólica para quem conhece sua trajetória. Ver mestre e discípulo dividindo cena em uma produção internacional tão popular acaba funcionando quase como uma homenagem.

Kenji Ohba representa como poucos a essência clássica do tokusatsu: coragem, carisma, ação intensa e um senso de heroísmo que marcou gerações. Sua influência permanece viva até hoje, podendo ser percebida tanto em novos atores quanto nas produções modernas do gênero, como Gavan Infinity. Mais do que interpretar heróis, Ohba ajudou a definir o que um herói do tokusatsu deveria ser. Seja como Battle Kenya, como Gavan ou em tantas outras participações ao longo da carreira, ele sempre transmitiu uma energia única, capaz de transformar cenas simples em momentos inesquecíveis para os fãs.

Obrigado por tudo, Kenji Ohba. E, para me despedir, seguirei acompanhando Denziman — porque talvez não exista homenagem melhor a um herói do que continuar assistindo às histórias que ajudaram a construir a paixão de toda uma geração.

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