Classicos, novos, cinema indiano e umas obscuridades
Singham (2011)
Já fazia um bom tempo que eu tinha assistido, no YouTube, a um vídeo com os melhores momentos de Singham e me divertido bastante. Ainda assim, nunca me animei a procurar o filme completo — nem mesmo depois de ter começado a explorar o cinema de Bollywood. Por fim, um desses drives que circulam pelo X-Twitter, jogou um link com o longa na minha cara. Resolvi aproveitar a oportunidade e finalmente conferir a obra.
O protagonista é Bajirao Singham, um policial íntegro e destemido que atua em uma pequena vila, onde é respeitado por seu caráter firme e seu inabalável senso de justiça. Sua rotina relativamente tranquila muda drasticamente quando ele cruza o caminho de Jaikant Shikre, um criminoso poderoso e influente, com tentáculos espalhados pelo sistema.
Como parte de um plano para humilhá-lo e enfraquecê-lo, Singham é transferido para a cidade grande. Longe de se intimidar, porém, ele se recusa a se dobrar à corrupção. Determinado a preservar sua honra e a da corporação, inicia uma verdadeira cruzada solitária contra o império criminoso de seu nêmesis.
Singham é um filme assumidamente feito para exaltar a polícia. Ainda assim, diferentemente de certos exemplares do cinema ocidental que adotam essa proposta de maneira sisuda e panfletária, aqui tudo é conduzido com tanta energia e exagero que a experiência se torna genuinamente divertida. Parte do charme está justamente na ingenuidade: Singham tem tanta convicção moral que chega a convencer policiais corruptos a retomarem o caminho da honestidade. Soma-se a isso a ação hiperbólica comandada por Rohit Shetty, que não economiza em explosões nem em carros capotando em câmera lenta. O resultado é um espetáculo visual que pede ao espectador que desligue a lógica e abrace o absurdo.
As cenas de luta são coreografadas para soar épicas — e são deliciosamente exageradas. Um único tapa de Singham faz o adversário girar no ar antes de desabar no chão (é impossível não rachar o bico com o gordo quicando após tomar um corretivo). Até mesmo os momentos em que o protagonista exagera na violência policial ganham um tom quase cartunesco, como na famosa surra de cinto aplicada nos meliantes. Padilha perde.
O sucesso foi tamanho que o filme ganhou continuações e ainda deu origem ao chamado “Cop Universe”. Esse universo compartilhado conecta diferentes longas protagonizados por heróis policiais indianos, como Simmba e Sooryavanshi.
A Fuga (Deadfall, 2012)
Após um assalto, os irmãos Addison e Liza tentam atravessar a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá em meio a uma violenta nevasca. Um acidente de carro muda drasticamente o rumo da fuga e, depois de Addison matar um policial, eles decidem se separar para aumentar as chances de sobrevivência.
Addison se embrenha na floresta congelada, deixando para trás um rastro de violência, enquanto Liza acaba cruzando o caminho de Jay, um ex-boxeador recém-saído da prisão. A caminho da casa dos pais para o jantar de Ação de Graças, Jay foge de novo problema com a polícia surgido justamente quando tentava recomeçar a vida. À medida que a polícia aperta o cerco, as trajetórias desses personagens se entrelaçam, conduzindo todos a um tenso reencontro familiar.
Aquele tipo de filme que facilmente estaria na prateleira da locadora, escolhido sem grandes expectativas para preencher uma tarde de domingo — e que acaba surpreendendo positivamente. Embora percorra trilhas já conhecidas do gênero, mantém um ritmo consistente e constrói personagens interessantes o bastante para sustentar o interesse.
O ótimo elenco — Eric Bana, Olivia Wilde, Charlie Hunnam, Kris Kristofferson, Sissy Spacek, Kate Mara e Treat Williams — contribui para elevar o material, conferindo peso dramático e carisma aos papéis. Além disso, o diretor faz bom uso da ambientação gélida, explorando a paisagem nevada como elemento de tensão e isolamento.
A Empregada (The Housemaid, 2025)
Millie Calloway é uma jovem marcada por um passado problemático que ainda pesa sobre suas chances de recomeço. Determinada a reconstruir a sua vida, ela aceita um emprego como empregada residente na casa da rica família Winchester. À primeira vista, a oportunidade parece ser a que tanto buscava.
Mas a promessa de estabilidade logo se revela ilusória. Nina Winchester, a patroa, alterna momentos de simpatia com atitudes imprevisíveis e cruéis, criando um ambiente de constante tensão. Já o marido, Andrew, surge como a figura ponderada da casa, oferecendo a Millie uma sensação de acolhimento e segurança.
Instalada em um quarto minúsculo no sótão — cuja porta só pode ser trancada pelo lado de fora —, Millie começa a desconfiar de que algo está profundamente errado. Aos poucos, ela percebe que os segredos da família Winchester podem ser muito mais sombrios e perigosos do que qualquer erro que tenha cometido no passado.
Dirigido por Paul Feig — que aqui deixa a comédia para mergulhar no suspense, como já havia feito em Um Pequeno Favor —, o filme resgata com gosto a estética dos thrillers eróticos que marcaram os anos 90. Seu maior trunfo está no embate entre a voluptuosa Sydney Sweeney e a enigmática Amanda Seyfried. Há também certo charme no fato de que o longa parece ter plena consciência de que é uma bobagem — e abraça isso sem pudor.
Visualmente elegante e envolvente, ainda que amparado por algumas conveniências de roteiro que exigem do espectador uma suspensão estratégica da descrença, o filme entrega exatamente o que promete. Em tempos que parecem cada vez mais reticentes quanto à sensualidade feminina no cinema comercial, a produção soa quase como um retorno provocativo aos bons tempos de Supercines e afins.
Sahara (1983)
Ambientado na década de 1920, o filme acompanha Dale, interpretada por Brooke Shields, uma jovem obstinada que decide assumir o lugar do pai falecido em uma arriscada corrida automobilística através do deserto do Saara. Para driblar as regras da competição, ela se disfarça de homem, lançando-se não apenas contra as dunas implacáveis e os inevitáveis problemas mecânicos, mas também contra as tensões políticas que atravessam a região.
No decorrer da jornada, Dale é capturada por Jaffar, um líder triba. Entre confrontos, choques culturais e alianças inesperadas, a relação entre prisioneira e captor ganha contornos cada vez mais previsíveis.
Produzido pela lendária Cannon Films, Sahara ambiciona o status de épico romântico, mas o resultado está mais próximo de um convite ao sono. O filme hesita entre a aventura automobilística e um romance bastante simplório, com evidente desequilíbrio a favor deste último. No fim das contas, o que realmente se destaca é a beleza de Brooke Shields (cujo disfarce masculino é tão convincente quanto o de Valeria Golino em Top Gang 2) e as locações de paisagens desérticas, que conferem ao longa uma grandiosidade visual muito superior àquela que seu roteiro e sua direção conseguem sustentar.
August in the Water (Mizu no Naka no Hachigatsu, 1995)
Durante um verão escaldante em uma pequena cidade japonesa, a história acompanha Izumi, uma talentosa estudante e promissora mergulhadora. Após sofrer um acidente durante um salto, ela passa a vivenciar sensações e visões inquietantes, como se algo dentro dela tivesse sido despertado.
Paralelamente, acontecimentos inexplicáveis começam a se espalhar pela cidade, alimentados por rumores de que um meteoro pode estar em rota de colisão com a Terra. Enquanto enfrenta mudanças físicas e emocionais que não consegue compreender totalmente, Izumi desenvolve uma ligação cada vez mais profunda e enigmática com a água — uma conexão que pode estar relacionada não apenas ao seu próprio destino, mas ao do planeta inteiro.
Sob a direção de Gakuryū Ishii, o filme privilegia imagens de forte carga poética, silêncios eloquentes e uma constante sensação de suspensão. O resultado é uma atmosfera delicadamente inquietante, quase hipnótica, que convida o espectador a sentir antes de compreender.
A narrativa mergulha em temas como amadurecimento, identidade e transcendência, articulando ciência e espiritualidade de forma delicada e sugestiva. O ritmo contemplativo pode soar excessivamente pausado para alguns espectadores — especialmente para aqueles que já classificam O Agente Secreto e Uma Batalha Após a Outra como “slow cinema” —, mas o filme recompensa quem aceita sua cadência serena e se deixa envolver pela atmosfera.
Visualmente delicado e tematicamente ambicioso, o longa aposta menos em explicações diretas e mais na construção sensorial de sua experiência. Vale destacar a presença do veterano de muitos filmes Hideyo Amamoto, rosto familiar para os fãs de tokusatsu por seus trabalhos em Kamen Rider e, principalmente para os brasileiros, em Machine Man onde interpretou o vilão Professor K.
Ruby Sparks: A Namorada Perfeita (Ruby Sparks, 2012)
Calvin é um jovem escritor que experimentou o sucesso ainda muito cedo, mas que agora se vê paralisado por um bloqueio criativo e por uma rotina solitária. Em meio à crise, ele começa a escrever sobre Ruby, uma personagem vibrante, espontânea e cheia de vida — exatamente o oposto de seu estado emocional.
O impossível acontece quando Calvin a encontra em sua cozinha, preparando o café da manhã tal como ele havia descrito no papel. Ruby é real, visível para todos, integrada ao mundo. Fascinado com o milagre, ele logo descobre algo ainda mais extraordinário — e perturbador: tudo o que escreve sobre ela se torna verdade.
O que a princípio parece a realização de um sonho romântico gradualmente revela seu lado sombrio. À medida que Calvin passa a moldar pensamentos, sentimentos e comportamentos de Ruby com algumas linhas no papel, o relacionamento se transforma em um terreno delicado e inquietante. A fantasia dá lugar a um dilema ético sobre controle, autonomia e o verdadeiro significado de amar alguém.
Escrito e protagonizado por Zoe Kazan, o filme propõe uma desconstrução do arquétipo da “Manic Pixie Dream Girl” — aquela figura excêntrica que existe apenas para resgatar o protagonista masculino de sua apatia existencial. Aqui, o roteiro subverte essa fantasia ao expor as implicações problemáticas desse ideal romântico.
A transição da comédia leve para um drama psicológico no terceiro ato é conduzida com habilidade, aprofundando as tensões que antes pareciam apenas charmosas ou pitorescas. Ainda assim, o longa mantém aquele clima delicado e “fofinho” típico do cinema indie, criando um contraste com os temas mais sombrios que emergem — ligados à possessividade e ao controle. No fim, o desfecho opta por uma resolução relativamente conciliadora, que soa forçada diante das questões complexas que a própria narrativa levanta.
Anjos Rebeldes (The Trouble with Angels, 1966)
A trama acompanha Mary Clancy, uma adolescente espirituosa e contestadora que passa a estudar em um tradicional internato comandado por freiras. Ao lado da inseparável amiga Rachel, ela coleciona pequenas travessuras e confrontos com a rígida Madre Superiora. Com o passar dos anos, no entanto, as vivências dentro do colégio a levam a rever certezas, amadurecer suas convicções e considerar um rumo inesperado para o próprio futuro.
Sob a direção sensível de Ida Lupino, o filme evita caricaturas fáceis e aposta em uma narrativa que privilegia o crescimento pessoal e a complexidade emocional das personagens. Leve e afetuosa, a obra funciona como um retrato nostálgico da juventude e das transformações que marcam a transição para a vida adulta. A estética sessentista, os figurinos caprichados e a ambientação contribuem para um conforto visual que torna a experiência agradável.
Faça Ela Voltar (Bring Her Back, 2025)
Se eu soubesse de antemão que os diretores eram os mesmos de Fale Comigo, nem teria apertado o play. Após o suicidio do pai, Andy e a meia-irmã Piper, que é ceguinha, são enviados para viver com Laura, uma ex-conselheira meio excêntrica que também abriga um menino mudo chamado Oliver. A mulher carrega um passado trágico: Cathy, filha de Laura morreu afogada na piscina do quintal.
Desde o início, Andy se incomoda com o comportamento estranho da nova tutora, seu favoritismo evidente por Piper e a postura estranha de Oliver. Decidido a proteger a irmã, ele comunica à assistente social e à própria Laura que pretende pedir a guarda de Piper assim que completar 18 anos (curiosamente lá ele já pode dirigir). A partir daí, Laura passa a agir de forma cada vez mais manipuladora, minando a confiança de Andy e insinuando que ele não tem condições psicológicas de cuidar da irmã.
O grande problema do filme é que, em uma trama que depende tanto do envolvimento emocional, os protagonistas são mal desenvolvidos a ponto de o espectador não se importar com o que lhes acontece. Andy toma decisões tão burras que chega a causar irritação, enquanto Piper é construída de maneira tão apagada que mal desperta empatia. A premissa até tem potencial para um suspense eficiente, mas a execução descamba para algo próximo de uma novela bem ruim, com uma vilã elaborando planos cada vez mais mirabolantes enquanto os demais personagens parecem incapazes de perceber o óbvio.
Americana (2023)
Ambientado no interior dos Estados Unidos, a trama do filme se desenvolve a partir da disputa em torno de um artefato indígena raro que desperta a cobiça de diferentes personagens — uma camisa de montaria dos povos nativos americanos — peça que carrega não apenas alto valor financeiro, mas também profundo significado histórico e espiritual.
Quando o objeto ressurge e passa a circular no mercado clandestino de uma pequena cidade, interesses distintos entram em rota de colisão. À medida que seus caminhos se cruzam, a narrativa mergulha em uma espiral de ganância, traições e violência.
Americana aposta em uma estrutura coral, alternando múltiplos pontos de vista que, aos poucos, revelam as verdadeiras motivações de cada personagem.Na direção, Tony Tost investe em uma estética seca e poeirenta, evocando o espírito dos neo-westerns contemporâneos. Há uma tentativa evidente de dialogar com o universo dos irmãos Coen, especialmente com Fargo, ao apostar em uma comédia de erros povoada por figuras excêntricas e moralmente ambíguas. No entanto, o resultado não alcança o mesmo equilíbrio, prejudicado por um ritmo irregular.
No elenco, Paul Walter Hauser se sai bem no papel do sujeito meio lesado lançado em circunstâncias extraordinárias, explorando com competência sua habitual mistura de vulnerabilidade e desajuste. Já Sydney Sweeney não convence muito como a garota gaga aparentemente ingênua e hesitante. A surpresa fica por conta de Halsey, que acaba se destacando como a presença mais interessante do conjunto.
Marty Supreme (2025)
O longa acompanha a trajetória de Marty, um jovem nova-iorquino de origem humilde que enxerga no tênis de mesa uma chance de ascensão social. Talentoso, carismático e provocador, ele transforma o esporte em espetáculo, desafiando adversários, convenções e até as próprias instituições que regem a modalidade.
Movido por uma ambição desmedida, Marty está disposto a ultrapassar limites — éticos inclusive — para provar ao mundo que nada é impossível para ele. No entanto, sua escalada rumo à fama é marcada por mais quedas do que triunfos, muitas delas consequência direta de suas próprias armações e atalhos arriscados.
Após anos trabalhando ao lado do irmão Benny, Josh Safdie segue agora em carreira solo — e fica claro qual dos dois opera permanentemente no 220. Enquanto Benny optou por um drama mais convencional com The Smashing Machine, Josh entrega um filme de ritmo frenético, barulhento, repleto de diálogos rápidos e reviravoltas constantes — e, acima de tudo, extremamente divertido.
As cenas de jogo são filmadas com agilidade, enquanto Timothée Chalamet demonstra segurança e carisma em uma performance que sustenta o caos ao seu redor. O elenco ainda conta com participação muito especial do grande Abel Ferrara, além de Odessa A’zion, minha musa atual, que rouba a cena da sem sal da Gwyneth Paltrow e confirma seu status de presença magnética. Espero que apareça em mais bons filmes como esse aqui.
As Bruxas (Le streghe, 1967)
Le streghe é uma antologia italiana formada por episódios dirigidos por Mauro Bolognini, Vittorio De Sica, Pier Paolo Pasolini, Franco Rossi e Luchino Visconti. O fio condutor entre as histórias é a presença de Silvana Mangano, que interpreta personagens distintos em cada segmento.
O longa oferece retratos variados da mulher sob o olhar de cineastas de estilos muito diferentes. Em cada capítulo, Mangano assume uma nova persona explorando desejos, frustrações, jogos de poder e as convenções sociais que moldavam o feminino na Itália dos anos 1960. As narrativas transitam entre a sátira, o drama íntimo e a alegoria, compondo um mosaico ao mesmo tempo irônico e revelador.
Os segmentos incluem:
- A Bruxa Queimada Viva – Uma estrela de cinema exausta busca refúgio em um resort alpino.
- Senso Cívico – Uma mulher presta socorro a um homem ferido em um acidente, mas suas motivações estão longe de serem altruístas.
- A Terra Vista da Lua – Uma fábula surrealista e colorida.
- A Siciliana – Uma história de honra e vingança ambientada em uma vila tradicional.
- Uma Noite Como as Outras – Uma dona de casa entediada, casada com um homem comum (vivido por, veja só, Clint Eastwood), fantasia com luxo, desejo e uma vida muito além da rotina doméstica.
Como toda antologia, o charme do filme reside justamente em sua irregularidade. Meu favorito é o episódio dirigido por Pasolini. E ver Eastwood no papel de um marido banal e entediante — uma de suas raras incursões fora do arquétipo do durão — é, no mínimo, curioso e divertido.
Rio, Eu Te Amo (2014)
O filme é uma antologia composta por curtas-metragens dirigidos por cineastas de diversos países, todos interligados por breves sequências de transição. As histórias exploram diferentes bairros e aspectos do Rio de Janeiro. Cada segmento foca em um tipo de amor — o romântico, o fraternal, o doloroso ou o lúdico — tendo sempre a paisagem urbana e natural do Rio como a protagonista silenciosa que molda o destino dos personagens.
Como toda obra episódica, o resultado é inevitavelmente irregular. Alguns segmentos se destacam pelo inusitado ou pelo simples fator curiosidade — como o que conta com a participação de Marcelo Serrado e do cara de True Blood, ou ainda o episódio dos vampiros com Tonico Pereira e a maravilhosa Roberta Rodrigues. O segmento com Harvey Keitel e Nadine Labaki também é bacaninha.
Por outro lado, há episódios que escorregam feio. O dirigido por Andrucha Waddington, com a Fernandona e o Freddy Mercury prateado exaltando a vida de mendiga — ainda que se possa supor que a personagem, uma ex-professora, tenha compreensivelmente enlouquecido — chega a ofender. Já o segmento comandado pelo coxinha José Padilha, com o indicado ao Oscar Wagner Moura vociferando contra a estátua do Cristo Redentor, beira o constrangimento.
Quase ri também ao ver Jason Isaacs no papel de um gringo lutador de rua. Fica a dúvida: Jean-Claude Van Damme não estava disponível?
Terra de Ninguém (Badlands, 1973)
O filme conta a história de Kit (Martin Sheen), um jovem catador de lixo de 25 anos que dizem ter uma semelhança impressionante com James Dean, e Holly (Sissy Spacek), uma adolescente de 15 anos tímida e impressionável.
Quando o pai de Holly tenta impedir o relacionamento, Kit o mata a sangue frio. A partir daí, o casal foge pelas planícies de Dakota do Sul e Montana, iniciando uma jornada de assassinatos aleatórios e sobrevivência. Enquanto Kit se vê como um fora da lei lendário, Holly narra a trajetória com uma voz passiva e sonhadora, tratando a violência como se fosse apenas um detalhe em um conto de fadas sombrio.
Terrence Malick, antes de virar um chato, constrói imagens serenas da paisagem americana, transformando pradarias e céus amplos em cenário para uma reflexão sobre alienação, juventude e mito. Martin Sheen compõe um protagonista carismático, enquanto Sissy Spacek transmite ingenuidade e ambiguidade moral.
Céu em Chamas (Heaven’s Burning, 1997)
Midori, em plena lua de mel na Austrália, finge o próprio sequestro para escapar de um casamento infeliz. O plano toma um rumo desastroso quando ela acaba sendo feita refém de verdade por uma gangue de assaltantes de banco. Durante a fuga, ela é salva por Colin, o motorista da gangue que decide trair seus parceiros para protegê-la. Agora, os dois estranhos tornam-se fugitivos cruzando o deserto australiano, perseguidos tanto pela polícia quanto pelos criminosos traídos e pelo marido corno de Midori.
A melhor coisa de Heaven’s Burning é a bonitinha Yūki Kudō, que conduz com sensibilidade a transformação gradual de sua personagem e confere à história uma dimensão emocional que o roteiro, por si só, nem sempre alcança.
Fora isso, o filme avança de maneira um tanto arrastada, como se hesitasse entre ser um thriller policial ou assumir o potencial dramático. O desfecho, excessivamente fatalista, soa mais forçado do que inevitável, encerrando a narrativa de forma pouco convincente.
She Shoots Straight (1990)
Mina Kao, uma inspetora de polícia determinada, acaba de se casar com o também inspetor Huang Tsung-pao. O que deveria ser o início de uma vida conjugal tranquila logo se complica diante da hostilidade das irmãs de Huang — igualmente policiais — que não apenas questionam a autoridade de Mina, mas também demonstram ressentimento em relação à sua ascendência.
As tensões familiares, porém, são abruptamente ofuscadas quando um grupo de criminosos vietnamitas desencadeia uma série de ataques em Hong Kong. Em meio a uma operação que sai desastrosamente do controle, uma tragédia atinge em cheio a família Huang. Diante da perda, Mina e as cunhadas são obrigadas a superar rivalidades e unir forças em uma busca implacável por justiça — uma cruzada que rapidamente assume contornos de vingança.
She Shoots Straight equilibra com habilidade humor, melodrama doméstico e ação. Na direção, Corey Yuen imprime seu habitual ritmo acelerado às cenas de confronto, apostando em acrobacias elaboradas e tiroteios caóticos coreografados com precisão balética.
Em um gênero historicamente dominado por protagonistas masculinos, é especialmente gratificante ver o desfecho ser conduzido por um embate físico intenso entre Mina e a irmã do chefão do crime. O confronto final se estende por longos minutos de pancadaria visceral, sustentado exclusivamente pelas duas personagens — sem a intervenção salvadora de qualquer macho —, encerrando o filme com uma afirmação de força e protagonismo feminino.
O Mago das Mentiras (The Wizard of Lies, 2017)
A queda de Bernie Madoff (Robert De Niro), o respeitado ex-presidente da NASDAQ que operou o maior esquema de pirâmide (Ponzi) da história. Durante décadas, Madoff atraiu investidores bilionários e pessoas comuns, prometendo retornos consistentes através de uma fraude sofisticada que acumulou cerca de 65 bilhões de dólares.
A trama foca no momento em que o esquema implode durante a crise financeira de 2008. Quando Madoff confessa o crime aos seus filhos, Mark e Andrew, e à sua esposa, Ruth (Michelle Pfeiffer), a vida de privilégios da família desmorona instantaneamente. O filme explora não apenas o crime financeiro, mas o rastro de destruição emocional, suicídios e o isolamento social que se seguiu à prisão de Bernie.
Sabemos que não é TV, é HBO — mas ainda há um leve traço daquele estilo televisivo mais tradicional na condução da narrativa. Ainda assim, trata-se de um thriller sólido, sustentado por boas atuações, com destaque absoluto para Robert De Niro, que entrega uma de suas performances mais consistentes dos últimos anos. Seu retrato de Bernie Madoff é marcado pela contenção: uma figura enigmática, de aparência quase impassível, que preserva uma fachada de normalidade enquanto, nos bastidores, provoca a ruína de milhares de vidas.
Céu e Inferno (High and Low / Tengoku to Jigoku, 1963)
Kingo Gondo, um executivo de uma fábrica de calçados, está prestes a assumir o controle da empresa por meio de um arriscado investimento. Seus planos são interrompidos quando recebe a notícia de que seu filho foi sequestrado — mas logo descobre-se que o criminoso capturou, por engano, o filho de seu motorista. Mesmo assim, o sequestrador exige um alto resgate. Diante do dilema moral entre proteger sua fortuna ou salvar a criança, Gondo precisa tomar uma decisão que mudará sua vida.
High and Low combina tensão policial com profunda análise social. A direção é precisa e elegante, utilizando enquadramentos e contrastes visuais para reforçar a divisão simbólica entre riqueza e pobreza, privilégio e desespero.
Na primeira metade, Kurosawa constrói um drama claustrofóbico ambientado quase inteiramente na sala de estar da casa de Gondo — uma residência luxuosa no alto de uma colina, de onde se avista a cidade abaixo. Nesse espaço restrito, desenrola-se um intenso conflito ético, marcado por pressões psicológicas e dilemas morais.
No segundo ato o filme desce às ruas. A narrativa abandona o ambiente burguês e mergulha nos becos, cortiços e áreas industriais, transformando-se em um procedural policial minucioso. Acompanhamos o trabalho metódico das autoridades na caçada ao criminoso, enquanto o contraste social se torna cada vez mais evidente.

Cinema, música, tokusatsu e assuntos aleatórios, não necessariamente nessa ordem






















