dicas de filmes assistidos 2026

Blog do Marc – Anotações sobre alguns filmes que vi pela primeira vez em janeiro de 2026

Impressões: De Clássicos a Lançamentos de 2026

Cidade das Ilusões (Fat City, 1972)

Dirigido por John Huston, É um retrato cru, melancólico e humano da vida de dois boxeadores em momentos opostos da carreira. Billy (Stacy Keach) é um veterano em franca decadência, agarrado à ilusão de um retorno improvável aos ringues. Já Ernie (Jeff Bridges) surge como um jovem promissor, porém sem rumo, marcado pela ingenuidade e pela falta de propósito. Distante de qualquer glamour esportivo, Fat City é um drama existencial que usa o boxe como pano de fundo para refletir sobre fracasso, desgaste e sonhos que insistem em sobreviver.

Cidade do Silêncio (Bordertown, 2007)

Lauren Adrian (Jennifer Lopez), é uma jornalista ambiciosa de Chicago enviada a Ciudad Juárez, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, para investigar uma série de assassinatos brutais de mulheres jovens — trabalhadoras das “maquiladoras”, fábricas de exportação instaladas na região. Com o apoio de um antigo colega e editor local (Antonio Banderas), ela se aprofunda em uma teia de corrupção que envolve corporações transnacionais, autoridades e a conivência do poder econômico.

O principal mérito do filme está na força de sua denúncia social. No entanto, a direção pouco inspirada e um roteiro que recorre aos clichês do thriller convencional acabam diluindo a gravidade do tema, substituindo a crueza dos fatos por uma condução previsível que culmina em um desfecho artificial, mais próximo de um drama televisivo de fim de noite do que da dura realidade que pretende expor.

Dois Heróis bem Trapalhões (Crimewave, 1985)

Esse é para quem procura uma definição precisa de caos cinematográfico. Lançado em 1985, é uma curiosidade fascinante: dirigido por Sam Raimi e escrito pelos irmãos Coen, ele mistura o estilo frenético de Evil Dead com o humor ácido, absurdo e desestabilizador que se tornaria a marca registrada dos Coen.

A trama acompanha Vic, um sujeito meio idiota que acaba injustamente condenado à cadeira elétrica. A partir daí, o filme se estrutura como um longo flashback que começa como um noir torto e rapidamente descamba para algo próximo de um desenho animado em live-action: uma comédia física levada ao paroxismo, em que a lógica narrativa é constantemente sabotada.

Longe de ser um título querido até mesmo entre os fãs dos talentos envolvidos, Crimewave ainda assim encontra força na energia maníaca que Raimi imprime em cada cena e em um humor que beira o histérico. É um filme desajeitado e excessivo — e justamente por isso, cativante.

Vingança Fatal (Falcon Rising, 2014)

John Chapman (Michael Jai White), é um ex-fuzileiro naval marcado por estresse pós-traumático e impulsos autodestrutivos. Quando sua irmã é brutalmente atacada no “Brasil”, ele viaja para as favelas do “Rio de Janeiro” em busca de vingança, entrando em confronto com a Yakuza (?!) e policiais corruptos.

A trama se desenrola em um Brasil filmado em Porto Rico. Não tentaram contratar nem o elenco da Record. A falta de pesquisa é fascinante. O elenco mal tenta soar brasileiro e a favela atende simplesmente pelo nome de “favela”. Não há qualquer esforço de verossimilhança cultural. Ainda assim, o filme não chega a ser uma perda total de tempo. Afinal, quem procura Falcon Rising está atrás de ação, e nesse aspecto ele funciona.

Em contraste com muitos filmes de ação hollywoodianos recentes, sufocados por cortes histéricos e câmeras tremidas, aqui a encenação privilegia planos mais abertos, permitindo que Michael Jai White brilhe. Ele sustenta a bagaça sozinho, com uma presença física imponente e uma atuação que adiciona uma dose inesperada de melancolia ao personagem. O roteiro, sabiamente, não desperdiça tempo e aposta numa narrativa direta de vingança, eficiente o bastante para manter o espectador desse tipo de filme (confesso: eu) engajado do começo ao fim.

Estrelas do Kung Fu (My Lucky Stars, 1985)

Muscles (Jackie Chan) é um policial que recruta seus amigos de infância — os “Cinco Estrelas da Sorte” — para viajar ao Japão e ajudá-lo a capturar um grupo da yakuza. Segundo filme da franquia Lucky Stars, o longa segue exatamente o que se espera da série: Jackie Chan aparece menos do que o fã deseja, enquanto o protagonismo recai sobre o grupo de desajustados liderado por Sammo Hung, que também dirige.

O resultado é um festival de humor pastelão, sustentado pela química entre os cinco protagonistas, que faz a comédia funcionar na maior parte do tempo. É verdade que algumas piadas se estendem além da conta, mas as acrobacias e o carisma do elenco compensam com folga. As lutas exibem a precisão técnica e a inventividade coreográfica que só o cinema de Hong Kong sabe entregar.

Confesso que sempre tive curiosidade em assistir a este filme, não apenas pelos nomes principais, mas pela presença da fabulosa Michiko Nishiwaki. Uma das musas da minha infância por sua participação na série Spielvan (1986), onde sua personagem Riki tem um fim ingrato (ainda mais do que aqui). Nishiwaki acabou encontrando um destino bem melhor, construindo uma sólida carreira como dublê em Hollywood.

Josie e as Gatinhas (Josie and the Pussycats, 2001)

Josie (Rachael Leigh Cook), Melody (Tara Reid) e Val (Rosario Dawson), formam uma banda de garagem de uma pequena cidade que é subitamente catapultada ao estrelato global pelas mãos de um empresário ambicioso e pouco confiável (Alan Cumming).

O que à primeira vista parece a realização do sonho de qualquer músico logo se revela parte de uma conspiração sinistra: o uso de mensagens subliminares nas canções para manipular e controlar o comportamento da juventude. Embora à primeira impressão soe como apenas mais uma “comédia boba” colorida e exagerada, o filme se revela uma sátira afiada sobre o consumismo desenfreado e a fabricação artificial de ídolos pela indústria fonográfica. É o tipo de crítica que soa quase impensável de encontrar no entretenimento que Hollywood despeja atualmente sobre o público.

Anjo Loiro (1973)

Adaptação contemporânea (para a época) do romance clássico O Anjo Azul, de Heinrich Mann. A narrativa acompanha a lenta e dolorosa decadência de um professor respeitável, rígido e moralmente inflexível (Mário Benvenutti), que se vê tomado por uma obsessão avassaladora por uma jovem interpretada por Vera Fischer (plenamente compreensível).

O diretor Alfredo Sternheim constrói um clima de melancolia urbana que traduz com sensibilidade o choque entre o conservadorismo arraigado e a emergência da libertação sexual característica da década.

No auge de sua beleza e no início de sua trajetória no cinema, Vera Fischer entrega uma atuação magnética que justifica plenamente o título do filme: mais do que mero objeto de desejo, sua personagem atua como força catalisadora da ruína moral do protagonista, expondo as fragilidades e hipocrisias de um mundo em colapso.

A Acompanhante (The Escort, 2015)

Mitch (Michael Doneger), é um jornalista com comportamento sexual compulsivo que, em meio ao desespero para salvar a própria carreira, enxerga numa pauta inusitada sua última chance de redenção profissional. Ele convence Natalie (Lindsy Fonseca), uma acompanhante de luxo, a permitir que ele a acompanhe em seus encontros, com a promessa de transformar a experiência em uma grande reportagem.

Apesar de se apresentar como algo mais ousado ou provocativo, o filme pouco disfarça sua natureza de comédia romântica açucarada. No fim das contas, acaba escorregando para um julgamento moral dispensável, diluindo qualquer potencial mais incisivo que a premissa inicialmente sugere. Participação apenas curiosa de Bruce Campbell como o pai do protagonista.

Com Quem Será? (Destination Wedding, 2018)

Frank (Reeves) e Lindsay (Ryder) são convidados de um casamento de luxo na Califórnia. Eles não se conhecem, mas logo descobrem que compartilham duas coisas: um desdém profundo pelo noivo e uma visão de mundo absolutamente cínica. O filme foca exclusivamente neles, isolando-os do restante dos convidados. Keanu Reeves e Winona Ryder sendo charmosamente insuportáveis por 90 minutos.

Predador: Terras Selvagens (Predator: Badlands, 2025)

Um jovem Predador rejeitado pelo seu próprio clã, decidido a provar seu valor, embarca numa jornada em busca de um adversário à sua altura. No caminho, ele encontra Thia, uma sintética danificada que se torna sua aliada improvável. Juntos, eles precisam sobreviver e forjam uma aliança improvável. Marca o retorno de Dan Trachtenberg à franquia após o ótimo Prey (2022). O resultado é competente e até divertido, mas excessivamente “disneyficado” para o meu gosto — a ponto de flertar com a lógica de mascote do estúdio, algo que dilui a brutalidade que sempre definiu a série.

Ainda assim, há méritos, e o maior deles é Elle Fanning, em uma atuação em dose dupla que sustenta boa parte do interesse do filme. Trachtenberg demonstra novamente domínio da encenação e do ritmo, mas a sensação é de que aqui suas escolhas são reféns de uma tentativa de ampliar o universo da franquia (colidindo mais uma vez com o de Alien). Funciona, mas não tem o impacto que fez de Prey um sopro de ar fresco.

A Negociadora (The Moderator, 2022)

Parte de uma premissa com bom potencial. Mya (Irma Lake) descobre que suas amigas foram brutalmente assassinadas no Marrocos e que o crime foi registrado em vídeo e disponibilizado na dark web. Diante da lentidão e da ineficácia da justiça institucional, ela decide assumir o papel de “moderadora” no mundo real: viaja até o país e inicia uma caçada aos responsáveis, combinando táticas de vigilância digital com confronto direto.

No papel, o argumento rende um thriller promissor — e o roteiro até apresenta boas ideias. O problema está na execução. A direção é ineficaz, a narrativa se dilui em um excesso de personagens e relações mal desenvolvidas, e o conjunto acaba soando confuso e disperso. A bela Irma Lake entrega uma performance física comprometida e consegue transmitir a frieza de alguém que não tem mais nada a perder, mas, paradoxalmente, sua personagem vai sendo empurrada para as margens de uma trama cada vez mais bagunçada.

O filme flerta com o espírito dos clássicos de “justiça vigilante”, à la Desejo de Matar, atualizando o conceito para o universo dos crimes digitais e da exploração online. Ainda assim, decepciona quem espera algo no molde de um “Exército de Uma Mulher Só”. Há uma ambição maior em jogo, culminando em um desfecho que poderia ser impactante — se o caminho até ele tivesse sido construído com mais coesão.

Sombras de um Crime (Marlowe, 2022)

Marlowe traz o icônico detetive criado por Raymond Chandler — aqui, porém, inserido em uma história que não é do autor. Philip Marlowe (Liam Neeson) é contratado por uma herdeira (Diane Kruger) para localizar um ex-amante desaparecido. A investigação o conduz a um submundo de corrupção que envolve os bastidores da indústria cinematográfica de Hollywood e pessoas tão influentes quanto perigosas.

Tecnicamente, o filme é irrepreensível: o design de produção e o figurino recriam com elegância o clima do noir clássico, e o elenco de apoio é sólido. Liam Neeson tem presença de sobra, mas é difícil comprar a ideia do personagem em cenas de pancadaria com a idade que o ator já carrega. Além disso, a trama investigativa carece de ganchos realmente fortes e do cinismo cortante que define os melhores exemplares do gênero. No fim, Marlowe funciona mais como um exercício de estilo bem-acabado do que como um suspense noir verdadeiramente memorável.

Tensão em Montana (Terror on the Prairie, 2022)

Hattie McAllister é uma pioneira que vive com a família em uma fazenda isolada nas planícies de Montana. Quando o marido se ausenta para ir à cidade, ela se vê encurralada por um grupo de bandidos impiedosos, transformando o cotidiano árido da fronteira em uma luta desesperada pela sobrevivência.

Após dizer algumas bobagens e ser chutada de The Mandalorian, Gina Carano encontrou abrigo na The Daily Wire, empresa de mídia americana mais conhecida por seu braço de notícias e podcasts de viés conservador, que lhe ofereceu a chance de produzir e estrelar seus próprios filmes. O resultado desse aqui até que não é nada desastroso.

Temos um faroeste de sobrevivência sustentado por uma atmosfera constantemente tensa. Carano até prova que não é a pior atriz do mundo (esse título é da Gal Gadot) e entrega uma atuação correta como uma mulher determinada a proteger a família a qualquer custo.

Confesso que senti falta dela distribuindo algumas porradas, mas dá para perceber a tentativa de mostrar um registro dramático. A parceria com a Bonfire Legend, produtora responsável por pedradas como Bone Tomahawk e Confronto no Pavilhão 99, ajuda a explicar por que o filme tem um nível de qualidade acima do esperado. Não é muito, mas…

Dinheiro Suspeito (The Rip, 2026)

Os parças Matt Damon e Ben Affleck são dois policiais do departamento de narcóticos de Miami. Durante uma operação aparentemente rotineira, eles e sua equipe descobrem uma enorme quantia de dinheiro escondida em um imóvel. A partir daí, forças externas passam a cercá-los, as tensões internas se intensificam e a confiança entre os colegas começa a ruir, enquanto tentam decidir em quem realmente podem confiar.

Joe Carnahan retorna aqui às suas raízes mais cruas, evocando o espírito de Narc. A trama de traição, sobrevivência e dilemas morais até funciona, sustentada por um bom elenco. O problema é o excesso de exposições desnecessárias — sintoma claro de um cinema pensado para quem não larga o celular — além de reviravoltas demais e um terceiro ato esticado até a exaustão, culminando numa perseguição surpreendentemente morna.

A fotografia genérica “padrão Netflix” também não ajuda a criar identidade visual. Ainda assim, há elementos que seguram o interesse, como a presença de Sasha Calle, que lamento não poder ver mais como Supergirl em outra opurtunidade.

O Agente Secreto (2025)

Thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho, ambientado no Brasil de 1977 (ano muito importante), em pleno regime militar. A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor perseguido pela repressão que chega a Recife na tentativa de reencontrar o filho e encontrar algum tipo de refúgio — apenas para descobrir que, mesmo longe dos grandes centros de poder, não existe lugar verdadeiramente seguro.

O filme articula suspense, crítica social e memória histórica com uma estética elaborada e uma atmosfera constantemente opressiva. Amplamente aclamada por crítica e público, a obra conseguiu algumas indicações ao Oscar, incluindo reconhecimento para a atuação marcante de Wagner Moura. O episódio do ataque da perna na praça soa meio fora do lugar, mas entendo o quanto certos impulsos narrativos podem ser irresistíveis. No conjunto, um filme memorável.

Until Dawn: Noite de Terror (Until Dawn, 2025)

A irmã da protagonista desapareceu, e, em busca de respostas, ela se reúne com um grupo de amigos e sai a sua procura. Eles acabam encontrando uma casa isolada. Logo começa uma luta desesperada pela sobrevivência, quando todos passam a ser caçados por uma presença mortal que parece brincar com o tempo e a repetição dos acontecimentos.

Baseado em um joguinho, o filme entrega mais um slasher ancorado em loop temporal. As mortes são gráficas, sangrentas e, em alguns casos, até criativas o suficiente para justificar a experiência. Confesso que assisti principalmente por causa de Odessa A’zion, que chamou minha atenção recentemente nos episódios de I Love LA.

Bem, eu já não aguento mais esse modelo de slasher em que personagens precisam superar traumas emocionais. O jovem de hoje não quer mesmo saber de sexo.

O Clube dos Prazeres (Tulpa: Demon on Desire, 2012)

Neo-giallo baseado em uma história do veterano Dardano Sacchetti, assumidamente inspirada na obra de mestres como Dario Argento e Lucio Fulci. O uso intenso de cores primárias e a estilização da cinematografia são, de longe, os maiores trunfos do filme. Fiel às raízes do gênero, a obra não economiza no gore: os assassinatos são elaborados, criativos e buscam deliberadamente o choque visceral que consagrou seus referenciais.

A trama acompanha Lisa Boeri, uma empresária bem-sucedida que, à noite, frequenta o Tulpa, um clube exclusivo administrado por um sujeito estranho, onde ela pode dar vazão às próprias fantasias. O clima se torna sinistro quando seus amantes passam a ser mortos de maneira brutal.

O filme tenta equilibrar suspense e elementos místicos, mas acaba tropeçando em um roteiro irregular, marcado por desenvolvimento arrastado e um desfecho apressado e patético. O resultado é uma experiência visualmente sedutora, mas narrativamente frustrante.

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