Clássicos sobre questões raciais, vampiros e mafiosos contemplativos
Lonely Heart (Sabishinbou, 1985)
Hiroki vive em um templo budista. Enquanto lida com as angústias típicas da adolescência e uma paixão platônica por uma garota distante que ele apelida de Miss Lonely Heart,uma figura misteriosa e frenética surge em sua vida.
Filme que mistura Freud, nostalgia e o toque surrealista e lúdico característico do diretor Nobuhiko Obayashi. É fofinho, belamente filmado, com momentos divertidos. Teria dado uma boa Sessão da Tarde nos bons tempos.
Olhos Cinzentos (Ojos Grises, 2018)
Ficção científica pós-apocalíptica uruguaia ambientada em um mundo devastado por uma catástrofe global que exterminou grande parte da humanidade e deixou os sobreviventes incapazes de enxergar cores — a realidade passou a existir apenas em tons de cinza. Nesse cenário surge uma droga sintética capaz de restaurar temporariamente a visão colorida.
Apesar do mérito de apostar em um gênero pouco explorado pelo cinema latino-americano, o filme sofre com um ritmo excessivamente arrastado e uma narrativa que nem sempre desenvolve todo o potencial de suas ideias. O próprio conceito visual acaba sendo abandonado ainda na metade do longa, sem justificativa. É interessante para quem busca produções do gênero fora de Hollywood, mas faltou coragem para escapar da previsibilidade desse tipo de obra.
Anônimo 2 (Nobody 2, 2025)
Hutch Mansell (Bob Odenkirk) tenta se reconectar com a família durante uma viagem de férias. O descanso, porém, rapidamente se transforma em caos quando ele cruza o caminho de uma organização criminosa ligada a uma perigosa chefe do submundo.
Sob direção de Timo Tjahjanto, a sequência aposta em cenas de ação ainda mais aceleradas com coreografias violentas. Ainda assim, uma continuação menos inspirada, incapaz de encontrar uma identidade própria. Em vários momentos, hesita entre abraçar de vez a comédia de ação exagerada ou buscar um tom mais sério e dramático, esbarrando em conflitos familiares e crises de identidade que Marcas da Violência, de David Cronenberg, trabalhou de maneira muito mais eficiente.
No fim, funciona melhor quando aceita sua vocação para o espetáculo e simplesmente amplia a pancadaria do original. A tentativa de aprofundar emocionalmente a história não convence — e acaba reforçando a sensação de que esta é apenas mais uma sequência desnecessária.
Adrenalina Máxima (Sonatine, 1993)
Dirigido e estrelado por Takeshi Kitano, que interpreta Murakawa, um veterano yakuza enviado a Okinawa para intermediar um conflito entre gangues rivais. O que parecia uma missão rotineira rapidamente se revela uma armadilha, obrigando Murakawa e seus homens a se refugiarem à beira-mar enquanto aguardam um desfecho.
É impossível não imaginar o sujeito desavisado que entrou numa locadora nos anos 90 e alugou o filme atraído pelo enganoso título em português “Adrenalina Máxima”, esperando um festival de tiros, explosões e ação desenfreada. Em vez disso, encontrava uma obra profundamente contemplativa, em que Kitano mais uma vez subverte todas as expectativas do cinema policial tradicional. A violência existe, mas surge de forma abrupta, seca e sem glamour, quase como uma interrupção brutal do vazio cotidiano.
Grande parte do filme é ocupada por silêncios, brincadeiras e momentos aparentemente banais entre os criminosos, criando uma atmosfera melancólica e existencial. Mais do que falar sobre crime, Kitano constrói um retrato sobre o tédio, a solidão e a inevitabilidade da morte, onde os personagens parecem buscar algum sentido enquanto aguardam o fim. É um filme hipnótico e profundamente humano. Espero que o espectador enganado pelo nomezinho na capa da fita tenha conseguido reconhecer que levou para casa uma obra-prima.
Meteorango Kid: Herói Intergalático (1969)
Lula é um jovem alienado que perambula por uma Salvador fragmentada e caótica enquanto tenta compreender sua própria identidade em meio a delírios, angústias existenciais e críticas sociais. O “herói intergaláctico” do título está longe de ser um salvador tradicional: Lula não consegue salvar ninguém — nem mesmo a si próprio.
Considerado um dos marcos do Cinema Marginal brasileiro, o filme de André Luiz Oliveira abraça o experimentalismo radical e rejeita qualquer preocupação com narrativa linear. Em vez disso, constrói um fluxo de consciência anárquico, onde deboche, psicodelia e desespero coexistem o tempo inteiro. Há momentos realmente memoráveis, como os créditos iniciais, a sequência dos maconheiros ao som de “Also Sprach Zarathustra” e a divertida referência ao seriado de Batman e Robin.
É uma obra bastante hermética, mais interessada em provocar sensações e rupturas do que em envolver emocionalmente o espectador. Mas falta a potência devastadora presente no cinema de Rogério Sganzerla, que tem sua obra mais famosa citada pelo filme.
O Último Samurai do Oeste (The White, the Yellow, and the Black, 1975)
Um pônei sagrado, presente do Imperador do Japão ao presidente dos Estados Unidos, é roubado, levando três figuras improváveis a se unirem para recuperá-lo. Em meio à jornada pelo Velho Oeste, o trio enfrenta criminosos, armadilhas e, principalmente, a própria incompetência.
Dirigido por Sergio Corbucci, o filme abandona completamente a brutalidade de Django, seu maior clássico, para abraçar a comédia pastelão e a paródia escancarada. O humor exagerado, os personagens caricatos e o clima farsesco revelam um gênero já desgastado, tentando sobreviver.
Mesmo com seu ritmo irregular e algumas piadas que envelheceram de maneira questionável (a maioria envolvendo a caricatura de japonês vivida por Tomás Milián), existe certo charme na forma como o longa expõe o cansaço do spaghetti western sem abandonar completamente sua identidade.
Dupla Perigosa (The Wrecking Crew, 2026)
Dois meio-irmãos distantes (Jason Momoa e Dave Bautista) se reencontram após a morte suspeita do pai, um detetive particular. A investigação os leva a uma conspiração envolvendo corrupção política, crime organizado e especulação imobiliária, enquanto ambos tentam lidar com suas diferenças e um passado familiar mal resolvido.
O filme aposta na fórmula clássica das buddy movies, evocando claramente o espírito das comédias explosivas dos anos 80 e 90. Seu maior trunfo está na química entre Momoa e Bautista: os dois sustentam boa parte do longa com carisma que funciona melhor do que o roteiro ou a direção pouco inspirada.
Nos seus poucos melhores momentos, Dupla Perigosa abraça sua proposta despretensiosa e entrega pancadaria exagerada e humor físico com ritmo acelerado. Já nos vários piores, tropeça ao tentar inserir um drama familiar mais sério e emocionalmente profundo, sem conseguir equilibrar o tom. Os vilões carecem de personalidade, e algumas sequências de perseguição lembram os piores gráficos de videogame. No fim, o filme sofre por nunca encontrar uma identidade própria forte o suficiente para torná-lo digno das melhores produções que o inspiraram.
Zu – Os Guerreiros da Montanha Mágica (Zu: Warriors from the Magic Mountain, 1983)
Na antiga China, a lendária Montanha Zu é cenário de guerras constantes entre facções rivais, disputada por sua enorme importância estratégica. Porém, além dos campos de batalha, a região abriga um universo místico repleto de feiticeiros poderosos, templos ancestrais e forças sobrenaturais que desafiam a própria realidade.
Dirigido por Tsui Hark, o filme é uma explosão de criatividade visual e energia ininterrupta. Hark conduz a narrativa em um ritmo frenético, quase alucinógeno, transformando cada cena em uma sucessão de combates coreografados com cabos e explosões de luzinhas coloridas que continuam impressionantes pela ambição e inventividade.
A lógica narrativa frequentemente cede espaço ao espetáculo puro. A direção de arte mistura mitologia chinesa, wuxia e psicodelia oitentista em um delírio visual que parece nunca desacelerar. É um cinema de excesso absoluto, onde a imaginação de Tsui Hark ignora limites físicos, narrativos e orçamentários para criar um universo fascinante.
Cão Branco (White Dog, 1982)
Julie Sawyer (Kristy McNichol) atropela acidentalmente um pastor-alemão branco e decide adotá-lo. Pouco depois, ela descobre que o animal foi treinado desde filhote para agir como um “cão branco”: um cachorro condicionado por racistas para atacar violentamente qualquer pessoa negra que encontre.
Recusando-se a sacrificar o animal, Julie consegue a ajuda de Keys, (Paul Winfield), um experiente treinador que aceita a difícil missão de reeducar o cão. O processo se transforma em uma batalha psicológica e física contra um ódio aprendido, profundamente enraizado e construído pela violência humana.
O diretor Samuel Fuller utiliza closes agressivos, enquadramentos sufocantes e a trilha sonora precisa de Ennio Morricone para transformar o cachorro em uma figura quase saída de um filme de terror — ao mesmo tempo monstruosa e trágica. Fuller conduz a narrativa de forma seca, direta e sem concessões, recusando simplificações morais fáceis.
A grande força da obra está em materializar o racismo em uma criatura inocente, moldada para odiar por mãos humanas. O cão não nasce monstruoso; ele é transformado em arma por uma cultura de intolerância. Dessa forma, o filme se torna uma crítica feroz à transmissão do preconceito entre gerações e à violência estrutural que o sustenta. Incômodo, provocador e ainda extremamente atual.
Inimigo Invisível (Stalked, 2019)
Sam (Rebecca Curran), uma jovem mãe solteira e ex-fuzileira naval é sequestrada e abandonada em um complexo militar remoto e deserto. Logo, ela percebe que está sendo caçada por um agressor invisível — um “Stalker” equipado com tecnologia de camuflagem avançada que o torna praticamente indetectável. Para sobreviver, Sam precisa recorrer ao seu treinamento militar e aos próprios instintos enquanto enfrenta um inimigo que não consegue enxergar.
A premissa tinha potencial para render um thriller eficiente, explorando paranoia, tensão e isolamento. E, curiosamente, as limitações orçamentárias nem chegam a ser o principal problema. O filme usa os efeitos visuais com certa contenção e aposta mais na encenação: os atores fingindo contracenar com uma presença invisível e o uso de enquadramentos vazios funcionam razoavelmente bem para convencer o espectador da ameaça.
O verdadeiro problema está no roteiro. As decisões narrativas são mal elaboradas, os personagens carecem de desenvolvimento e a construção de tensão nunca encontra o ritmo necessário para sustentar a proposta. O resultado é um filme arrastado, em que pouco acontece de fato, fazendo seus pouco mais de 80 minutos parecerem intermináveis. Nem o desfecho consegue salvar, encerrando tudo de maneira pouco inspirada e equivocada.
Inevitavelmente, o longa acaba lembrando produções muito mais eficientes que trabalham ideias semelhantes, como O Homem Invisível (2020) ou o episódio See No Evil de Batman: The Animated Series, ambos explorando a figura de um homem abusivo e covarde que usa a invisibilidade para aterrorizar mulheres.
Avatar: Fogo e Cinzas (Avatar: Fire and Ash, 2025)
Jake Sully e Neytiri, após a devastadora guerra contra a RDA e a perda traumática do filho mais velho, tentam reconstruir a própria família, eles se deparam com uma nova ameaça: o Povo das Cinzas, uma violenta tribo Na’vi liderada pela implacável Varang. Capazes de controlar o fogo e movidos por uma visão radicalizada de poder, os guerreiros desse novo clã podem alterar definitivamente o equilíbrio de Pandora. Em meio a mais uma ofensiva humana de colonização, Jake e sua família precisam lutar não apenas pela sobrevivência, mas também pelo futuro espiritual e político do planeta.
Mais uma vez, James Cameron demonstra domínio absoluto do espetáculo cinematográfico. Fogo e Cinzas mantém o altíssimo padrão técnico da franquia, entregando um universo visualmente monumental, repleto de detalhes, texturas e sequências de ação que reafirmam o diretor como um dos grandes arquitetos do blockbuster.
Mas o diferencial da saga continua sendo sua dimensão humana. Em uma era dominada por heróis egoístas e narrativas vazias, Cameron ainda constrói protagonistas pelos quais o público genuinamente se importa e antagonistas que vão além da caricatura. O filme busca aprofundar temas como luto, trauma, família e radicalização cultural sem cair em simplificações infantis, alcançando um peso emocional que grande parte do cinema de aventura atual parece incapaz de atingir.
Mesmo cercado por efeitos deslumbrantes e batalhas grandiosas, o coração do filme permanece nas relações entre seus personagens — e é justamente isso que impede Avatar: Fire and Ash de se tornar apenas mais um espetáculo vazio de CGI.
2010: O Ano em que Faremos Contato (2010, 1984)
Nove anos após os eventos da missão Discovery One, uma expedição conjunta entre americanos e soviéticos parte rumo a Júpiter a bordo da nave russa Leonov, liderada pelo Dr. Heywood Floyd, (Roy Scheider). A missão possui dois objetivos centrais: descobrir o que realmente aconteceu com a Discovery e reativar o HAL 9000 para compreender a falha que levou à tragédia anterior. Ao mesmo tempo, a tripulação tenta desvendar o mistério do Monolito que permanece orbitando o planeta, enquanto as tensões da Guerra Fria ameaçam a frágil cooperação espacial entre as superpotências.
Peter Hyams opta por um caminho completamente diferente do adotado por Stanley Kubrick. Onde Kubrick trabalhava o silêncio, a ambiguidade e o fascínio do desconhecido, Hyams prefere a explicação, os diálogos expositivos e uma narrativa muito mais acessível. O resultado é um filme mais convencional, que sacrifica parte da aura mística e filosófica que torna o original tão hipnótico e atemporal.
Ao incorporar diretamente o contexto político dos anos 1980, o longa acaba envelhecendo mais do que seu antecessor, cuja abordagem abstrata permanece atemporal. Os efeitos práticos são bons e demonstram certo cuidado visual, ainda que dificilmente alcancem o impacto de 2001. A trilha sonora também não possui a mesma presença do filme original — embora ouvir Also Sprach Zarathustra novamente provoque aquele inevitável arrepio.
Christy – Um Novo Round (Christy, 2025)
Christy é baseado na história real da boxeadora Christy Martin, uma das maiores estrelas do boxe feminino nos anos 1990. O filme acompanha sua ascensão nos ringues enquanto, longe dos holofotes, sua vida pessoal mergulha em um relacionamento abusivo e destrutivo com o treinador e marido.
Dirigido por David Michôd, o longa alterna momentos de forte intensidade emocional com a estrutura bastante tradicional das cinebiografias. Ainda assim, consegue funcionar graças ao empenho do elenco principal. Sydney Sweeney busca provar que não é apenas um rostinho (e corpinho também) bonito e entrega uma atuação física e emocionalmente comprometida.
Mas quem impressiona mais é Ben Foster, que compõe uma presença perturbadora e sufocante. O resultado é um drama competente, que não escapa totalmente das fórmulas do gênero, mas está longe do desastre que parte da internet fez parecer.
Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties, 1929)
A trama acompanha três homens — Eddie Bartlett (James Cagney), George Hally (Humphrey Bogart) e Lloyd Hart (Jeffrey Lynn) — que se conhecem nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Ao retornarem para casa, enfrentam o desemprego e a falta de perspectivas, até que a Lei Seca entra em vigor. Eddie, movido pela necessidade e ambição, torna-se um poderoso contrabandista de bebidas. Enquanto ele ascende no submundo, seus caminhos se cruzam com a crueldade de George e a integridade de Lloyd, culminando no inevitável colapso trazido pela Quebra da Bolsa de 1929.
Dirigido por Raoul Walsh, o filme equilibra a energia explosiva do cinema de gangster com uma sensibilidade quase documental. Walsh utiliza narrações, manchetes e montagens de arquivo para conectar diretamente a ficção aos acontecimentos históricos, transformando a trajetória de Eddie Bartlett em uma amarga alegoria do Sonho Americano corrompido pela ganância e pelas circunstâncias sociais. No centro de tudo está a excelente atuação de Cagney, que combina intimidação, vulnerabilidade e tragédia com impressionante naturalidade.
O Dia Em Que o Sol Brilhou (Watermelon Man, 1970)
Jeff Gerber (Godfrey Cambridge) é um corretor de seguros branco, extremamente preconceituoso, arrogante e viciado em sua rotina de exercícios. Ele vive em um subúrbio tipicamente americano com sua esposa “liberal” e dois filhos. Sua vida vira de cabeça para baixo quando, certa manhã, ele acorda e descobre que sua pele tornou-se negra da noite para o dia. Após tentativas desesperadas de “se curar”, Jeff é forçado a enfrentar o preconceito que antes praticava, passa a experimentar na pele as tensões raciais da sociedade americana.
Dirigido por Melvin Van Peebles, o filme mistura comédia e sátira social com uma ousadia rara para sua época. O que começa quase como uma farsa absurda rapidamente se torna uma crítica mordaz ao racismo estrutural. Van Peebles conduz a narrativa com ironia afiada, equilibrando humor desconfortável e momentos de real inquietação. A escolha de colocar um ator negro (Godfrey Cambridge) maquiado de branco no início do filme é brilhante. Isso cria um efeito de “vale da estranheza” que serve como critica a pratica muito utilizada pelos brancos caricaturizando personagens negros ou orientais.
A fotografia de Watermelon Man é outra grande força do filme. Ela oscila entre o surrealismo suburbano e a urgência do cinema independente traduzindo visualmente o choque de identidade do protagonista.
Minnesota Clay (1964)
Um pistoleiro envelhecido retorna à pequena cidade onde um dia foi temido. Marcado pelo passado e sofrendo com a perda gradual da visão, ele tenta acertar antigas contas e proteger a própria filha enquanto enfrenta velhos inimigos e a decadência inevitável de sua reputação lendária.
Dirigido por Sergio Corbucci antes de alcançar fama mundial com Django, o filme já revela muitos dos elementos que marcariam sua carreira: personagens moralmente ambíguos, violência seca e um forte sentimento de fatalismo. Diferente dos heróis invencíveis tradicionais do faroeste clássico, Minnesota Clay surge como uma figura vulnerável, quase derrotada antes mesmo do confronto final.
A iminente cegueira do protagonista adiciona uma camada de tensão genuína às cenas de duelo. Existe algo profundamente melancólico em acompanhar um homem cuja principal habilidade — a mira — está desaparecendo diante de seus olhos. O espectador sente o desespero silencioso de alguém tentando preservar a própria dignidade enquanto percebe que o tempo já o venceu.
Cameron Mitchell entrega uma atuação contida, equilibrando a dureza típica do pistoleiro com a angústia física e emocional de um homem em declínio. Assisti uma versão do filme que apresenta dois finais diferentes: um mais otimista e outro mais trágico que parece dialogar melhor com o universo cruel e desencantado que Corbucci mais tarde consolidaria em seu spaghetti western mais famoso.
Detonando em Barcelona (Wheels on Meals, 1984)
Dois primos chineses que administram um food truck em Barcelona acabam se envolvendo com uma bela golpista e um detetive atrapalhado.
Dirigido por Sammo Hung, o filme representa perfeitamente o auge do cinema de ação de Hong Kong dos anos 1980: uma mistura explosiva de humor físico, acrobacias absurdas e cenas de luta coreografadas com precisão impressionante. Hung demonstra enorme habilidade ao equilibrar a leveza da narrativa com um caos cômico que frequentemente flerta com o pastelão, sem jamais comprometer o ritmo da aventura.
Mas é no confronto final entre Jackie Chan e Benny Urquidez que o filme consegue seu grande momento. A sequência é uma das melhores lutas de artes marciais já filmadas — um espetáculo de técnica, velocidade, impacto e precisão coreográfica que impressiona pela sensação de realismo físico.
Caminhos do Crime (Crime 101, 2026)
Um habilidoso ladrão de joias (Chris Hemsworth) planeja realizar seu último grande golpe antes de abandonar o mundo do crime. No caminho, ele se envolve com uma corretora de seguros desiludida (Halle Berry), enquanto um detetive obstinado (Mark Ruffalo) segue seus passos.
A direção de Bart Layton aposta em um thriller policial elegante, mais interessado em atmosfera, tensão e construção de personagens do que em explosões ou ação desenfreada. Layton conduz a narrativa com um realismo frio e calculado que claramente remete ao cinema de Michael Mann, embora sem alcançar a mesma densidade emocional ou existencial de clássicos como Fogo Contra Fogo ou Profissão: Ladrão.
Hemsworth surpreende ao interpretar um criminoso metódico, silencioso e contido. Ruffalo, por sua vez, entrega um detetive cansado, melancólico e perspicaz — ainda que seu trabalho na série Task seja mais interessante e complexo.
Na tentativa de se tornar uma espécie de “Heat da nova geração”, o roteiro acaba tropeçando em excesso de subtramas e em um ritmo irregular que dilui parte da tensão. O desfecho otimista também destoa bastante do cinema policial de Mann. Ainda assim, há sinais promissores no trabalho de Layton. A sequência do assalto à joalheria com Barry Keoghan é especialmente bem orquestrada, combinando suspense, precisão visual e caos controlado de maneira bastante divertida.
Drácula: Uma História de Amor Eterno (Dracula: A Love Tale, 2025)
A tentativa de Luc Besson de revisitar o mito criado por Bram Stoker. Na verdade, mais de repetir a abordagem romântica de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, do que propriamente adaptar o espírito do romance original, que nunca teve esse viés melancólico de amor eterno.
A trama é praticamente a mesma. O príncipe Vlad, devastado pela morte da esposa, renega Deus e é amaldiçoado com a imortalidade vampírica. Séculos depois, ele acredita encontrar a reencarnação de seu antigo amor, iniciando mais uma história de paixão trágica e obsessão sobrenatural — uma premissa que inevitavelmente convida comparações com o filme de Coppola, comparação da qual esta versão dificilmente sai viva.
Besson aposta em uma estética exagerada, quase kitsch, que em alguns momentos parece flertar com a sátira. O problema é que o diretor nunca assume totalmente esse tom. O filme oscila entre o melodrama gótico e uma seriedade melancólica tão insistente que acaba tornando a experiência cansativa. Falta sensualidade, falta terror e, principalmente, falta personalidade.
As atuações raramente convencem, enquanto os figurinos e a fotografia evocam uma artificialidade que lembra produções televisivas de baixo orçamento. Os efeitos visuais também comprometem bastante a atmosfera, aproximando o filme de produções da Asylum em seus momentos mais digitais e excessivos. Puta sacanagem trocar as noivas do Dracula por aquelas gárgulas vergonhosas.
No fim, Drácula: Uma História de Amor Eterno fracassa como romance gótico, como terror e até mesmo como releitura estilizada do mito vampírico. Gosto bem do Luc Besson dos anos 1990 (O Profissional, O Quinto Elemento e Joana d’Arc), mas Dracula é uma das piores coisas que assisti nos últimos tempos.
O Testamento de Ann Lee (The Testament of Ann Lee, 2025)
A trajetória de Ann Lee (Amanda Seyfried), líder religiosa que fundou o movimento dos Shakers — uma comunidade utópica baseada em celibato, trabalho coletivo e devoção espiritual extrema.
A principal força do filme está na atuação de Seyfried, que sustenta com intensidade a ambiguidade da personagem entre fé genuína, carisma espiritual e delírio messiânico. Os números musicais inspirados nos rituais Shaker são uma tentativa de escapar da estrutura convencional de cinebiografia. Porém, o tom do filme acaba evocando involuntariamente a lembrança daquela cena do Oscar em Corra que a Polícia Vem Aí! 33⅓: O Insulto Final, quando se anuncia com pompa um musical sobre Madre Teresa dirigido por Richard Attenborough.
Segundo a Wikipedia, em 2019 restava apenas uma comunidade Shaker ativa: a Sabbathday Lake Shaker Village, composta por apenas dois integrantes (compreensível).

Cinema, música, tokusatsu e assuntos aleatórios, não necessariamente nessa ordem























