dicas de filmes

Blog do Marc – Notas sobre alguns filmes que vi pela primeira vez em março de 2026

Blaxploitation, diretores renomados e umas surpresas

Rififi No Harlem (1970)

Dois detetives durões do Harlem, “Gravedigger” Jones e “Coffin” Ed Johnson, investigam o reverendo Deke O’Malley, um vigarista que aplicou golpe na comunidade local com a promessa de uma viagem de volta à África (crente acredita em cada coisa). Durante um tiroteio, o dinheiro roubado é escondido dentro de um fardo de algodão que cai do veículo em fuga. Para recuperar a quantia e prender o falso reverendo, os detetives precisam lidar com criminosos, oportunistas e cidadãos comuns.

Dirigido por Ossie Davis, Cotton Comes to Harlem é frequentemente citado como um dos precursores do gênero Blaxploitation. Aliás, conversei sobre em um episódio do podcast Ponto Cego. Baseado no romance homônimo de Chester Himes, o filme combina com habilidade humor, crítica social e elementos do noir. Com diálogos afiados e situações inusitadas, mantém o ritmo ágil de um bom buddy cop movie, sustentado por uma dupla de protagonistas carismáticos (Godfrey Cambridge e Raymond St. Jacques).

Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971)

Sweetback (Melvin Van Peebles) é um homem criado em um bordel que ganha a vida no submundo de Los Angeles. Sua vida muda drasticamente quando ele é levado sob custódia por dois policiais brancos. No caminho, ele testemunha a dupla espancar brutalmente um ativista negro e, em um ato impulsivo, revida e mete a porrada nos tiras. A partir daí, torna-se um fugitivo, atravessando guetos e desertos, contando com o apoio da comunidade negra enquanto desafia o sistema opressor.

Outro filme debatido no podcast Ponto Cego. Produzido de forma totalmente independente, com baixo orçamento, fez ótima bilheteria. É apontado como o percursor do movimento blaxploitation, mas se diferencia da maior parte das produções do gênero pela ausência de concessões comerciais pois rompe com convenções narrativas tradicionais e aposta em uma estética fragmentada, quase sensorial.

Baadasssss! (2003)

Baadasssss! acompanha os bastidores da criação de Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, mostrando os desafios enfrentados por Melvin Van Peebles para realizar o filme da forma que idealizou, um filme que ninguém queria financiar. Dirigido por Mario Van Peebles, que também interpreta seu próprio pai, acompanha Melvin enfrentando a falta de recursos, os problemas com o sindicato, a polícia e a necessidade de usar táticas como fingir que estava realizando um filme pornô.

Funciona como um diário de bordo, celebrando a perseverança do artista independente. Embora siga uma estrutura convencional, há uma sinceridade que se impõe — e que acaba transformando o filme em uma aula de cinema de guerrilha. Vi como um complemento para participar do podcast.

Amor na Tarde (1957)

Ariane Chavasse (Audrey Hepburn), filha de um detetive particular em Paris, se envolve de forma inesperada na vida de Frank Flannagan (Gary Cooper), um playboy americano conhecido por seus inúmeros casos amorosos. Fascinada por esse mundo de romances passageiros, Ariane decide se aproximar dele; para parecer mais interessante e sofisticada, ela inventa uma vida fictícia cheia de histórias amorosas.

O roteiro traz bons diálogos e situações cômicas com aquele tom característico de Billy Wilder, mas, ainda assim, foi o menos me agradou do diretor. Não se trata nem da diferença de idade entre os personagens — algo comum nos pares românticos de Audrey Hepburn e que até funcionou bem em Sabrina e Charada — mas aqui, porém, a química com Gary Cooper simplesmente não acontece. Não me convenceu. Quem realmente se destaca é Maurice Chevalier, no papel do pai-detetive. O filme fica mais divertido sempre que ele entra em cena.

Bird (1988)

Bird retrata a vida intensa e turbulenta de Charlie Parker, um dos maiores nomes do jazz e pioneiro do bebop. A narrativa alterna momentos de sua ascensão meteórica na cena musical com os conflitos pessoais que marcaram sua trajetória — o vício em drogas, relações amorosas conturbadas e o peso da genialidade. Entre apresentações arrebatadoras e crises profundas, o filme constrói o retrato de um artista brilhante que viveu à beira do colapso.

Dirigido por Clint Eastwood, o filme é uma homenagem sensível e melancólica ao legado de Parker. Longe de romantizar seus excessos, o longa foge da cronologia linear e mergulha nas fragilidades do músico, equilibrando momentos de beleza musical com a dureza de sua vida pessoal. A performance de Forest Whitaker é ótima, capturando com profundidade a complexidade emocional do personagem.

Enterre Seus Mortos (2024)

Edgar Wilson (Selton Mello) trabalha recolhendo animais mortos nas estradas do interior. Ele vive uma rotina melancólica e embrutecida que é quebrada quando sua namorada, Nete (Marjorie Estiano), se junta a um culto religioso enigmático que prega a ascensão espiritual diante do fim dos tempos.

Marco Dutra combina bem horror cósmico, faroeste e drama existencial, marcado pela desolação e pelo fatalismo. O ritmo é deliberadamente lento, mas envolvente, e a ausência de respostas claras contribui para o impacto da experiência. A fotografia de Rui Poças aposta em tons avermelhados, criando um mundo que parece permanentemente febril.

Becoming Led Zeppelin (2025)

O documentário mergulha nas origens de Led Zeppelin, acompanhando as trajetórias individuais de Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham — desde os primeiros passos na música até a formação do grupo e sua ascensão no fim dos anos 1960. A produção reúne imagens de arquivo restauradas e entrevistas em áudio inéditas, incluindo uma conversa rara com o já falecido Bonham.

Trata-se de um documentário de viés mais “acadêmico”, construído de forma convencional, que remete mais a programas de canais a cabo do que a uma proposta cinematográfica propriamente dita. Ainda assim, o tema por si só é suficiente para prender a atenção: afinal, estamos falando da maior banda de rock de todos os tempos.

Impacto Mortal (1990)

Jacques, um estudante francês, muda-se para Los Angeles para estudar e acaba se envolvendo em um conflito com uma gangue local. Olivier Gruner é um dos tantos artistas marciais que ganharam espaço no cinema no rastro do sucesso de Jean-Claude Van Damme, tornando-se rostos frequentes das produções de ação “B” que dominavam as locadoras nos anos 1990.

As cenas de luta até são competentes, ainda que nada memoráveis, e a fotografia consegue capturar bem a estética dos subúrbios de Los Angeles naquele período. No entanto, o filme não vai muito além disso, esbarrando constantemente nos clichês que dominam a narrativa e limitam seu — ahã — impacto.

Matar. Vingar. Repetir (2025)

Irene Kelly é uma mãe devastada pelo assassinato brutal da filha. Em busca de vingança, ela utiliza uma tecnologia que permite viajar entre universos paralelos, onde encontra diferentes versões do assassino e o mata repetidas vezes. Essa obsessão a prende em um ciclo infinito de violência, colocando sua própria humanidade em risco e mostrando que “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”

Filme de manos! Redux Redux, dirigido pelos irmãos Kevin e Matthew, com a irmã Michaela McManus como protagonista, e foi uma surpresa bacana. Fui assistir sem grandes expectativas — já fazia tempo que nada do gênero realmente me envolvia — e acabei gostando bastante.

Ao contrário das produções bocós da Marvel, o filme utiliza o conceito de multiverso para alguma coisa. Aqui aparece como uma metáfora perturbadora para o ciclo interminável do trauma e da obsessão. Com um orçamento enxuto e uma estética mais “pé no chão”, os diretores optam por deixar a tecnologia em segundo plano, concentrando-se no desgaste psicológico da protagonista.

O roteiro evita se perder em explicações pseudocientíficas excessivas, preferindo mergulhar no drama humano da personagem. Michaela McManus entrega uma atuação intensa, transmitindo com precisão o vazio e exustão de alguém consumido pela vingança. Já a direção aposta em uma abordagem tensa e claustrofóbica, transformando o sci-fi em um suspense dramático envolvente.

Oliver Twist (2005)

Maltratado, o órfão Oliver Twist (Barney Clark) foge de um orfanato. Exausto e faminto, ele é acolhido por Fagin (Ben Kingsley), o líder de uma gangue de crianças treinadas para roubar. Enquanto Oliver busca um senso de pertencimento e família, ele acaba preso em um submundo criminoso e perigoso, encontrando figuras cruéis como o violento Bill, mas também a esperança de uma vida melhor através da bondade de estranhos.

A adaptação de Roman Polanski para o clássico de Charles Dickens opta por reduzir o sentimentalismo típico da obra e investir em uma atmosfera mais crua, sombria e realista — uma abordagem coerente com o estilo do diretor. Ainda assim, entre os trabalhos que vi de Polanski, este acaba sendo o mais fraco, justamente por soar mais como um drama convencional, sem o mesmo impacto de outras obras de sua filmografia.

Jones, o Faixa Preta (1974)

Quando a máfia local tenta se apoderar do terreno de uma escola de caratê no centro da cidade para um projeto imobiliário corrupto, o dono da escola acaba sendo assassinado (com um tapa). É então que entra em cena Black Belt Jones (Jim Kelly), um agente federal e mestre em artes marciais que resolve cair de porrada em cima dos inimigos e honrar a memória de seu antigo mestre.

Dirigido por Robert Clouse — o mesmo de Operação Dragão —, o filme tenta alçar Jim Kelly ao status de astro após sua parceria com Bruce Lee. O resultado, porém, é irregular: a montagem é confusa, a narrativa soa desorganizada e nem mesmo as cenas de luta conseguem empolgar, de tão pouco inspiradas.

Ainda assim, há alguns pontos positivos. As personagens femininas fogem do estereótipo da donzela em perigo e o clímax no lava-jato, com a pancadaria em meio a espuma e sabão, ao menos é visualmente curioso e memorável.

Metalocalypse: Army of the Doomstar (2023)

A conclusão da série animada Metalocalypse, estrelada pela banda de death metal Dethklok. Após o resgate do guitarrista Toki Wartooth, o vocalista Nathan Explosion enfrenta uma crise pessoal profunda. Ao mesmo tempo, ele precisa cumprir uma antiga profecia: compor a música capaz de impedir o apocalipse iminente.

O filme consegue amarrar as pontas soltas e oferece um desfecho satisfatório para a história. Ainda assim, sofre com alguns problemas de ritmo e, em certos momentos, não preserva com a mesma precisão o timing cômico da série.

Relay – Contrato Perigoso (2024)

Ash (Riz Ahmed) é um intermediário especializado que atua nas sombras negociando acordos ilegais entre grandes corporações corruptas e pessoas que ameaçam expô-las. Operando com regras rígidas e mantendo total anonimato, ele controla cada detalhe de seu trabalho. No entanto, tudo muda quando uma nova cliente, Sarah (Lily James), surge pedindo proteção para permanecer viva — fazendo Ash quebrar suas próprias regras.

Relay é um ótimo filme que remete diretamente aos thrillers de conspiração dos anos 70, evocando o clima de desconfiança e tensão característico desse período. A direção constrói com eficiência uma atmosfera paranoica envolvente e constante.

Embora o terceiro ato flerte com convenções mais genéricas do cinema de ação, as reviravoltas são bem conduzidas e mantêm o interesse. A atuação contida de Riz Ahmed é um dos grandes trunfos do filme, sustentando a narrativa com precisão e dando profundidade a um tipo solitário e metódico — reforçando por que ele é um dos atores mais interessantes da atualidade.

Socorro! (2026)

Linda Liddle (Rachel McAdams), uma funcionária subestimada, e seu arrogante chefe, Bradley Preston (Dylan O’Brien), se tornam os únicos sobreviventes de um acidente aéreo durante uma viagem corporativa. Presos em uma ilha deserta, os dois precisam deixar de lado rivalidades para sobreviver aos perigos naturais. No entanto, o que começa como uma aliança frágil rapidamente se transforma em um jogo psicológico de manipulação, poder e sobrevivência, onde inteligência e crueldade passam a ser armas decisivas.

O suposto retorno de Sam Raimi às suas raízes foi bastante celebrado, mas, sinceramente, eu esperava mais. Apesar de alguns acenos ao estilo que o consagrou, o filme ainda é limpo demais, lembrando fórmulas que o cinema vem repetindo ano após ano. O desfecho me lembrou coisas como Pisque Duas Vezes e Eu Me Importo. Ainda assim, Rachel McAdams está ótima e a assinatura visual de Raimi — mesmo com pouco gore — ainda consegue se destacar em alguns momentos.

Outubro Negro (1991)

O jornalista Mike Anderson (Dolph Lundgren) é enviado para investigar um ataque terrorista mortal em uma base naval dos EUA em Tel Aviv. Embora o plano oficial aponte para um grupo terrorista local, Anderson suspeita que algo mais está acontecendo nos bastidores.

Dolph Lundgren trocou a pancadaria ininterrupta por uma trama de conspiração política e espionagem. Para quem espera um filme de ação frenético, a coisa aqui é mais lenta. A narrativa segue um caminho previsível, mas mantém um ritmo eficiente. Curiosamente o filme já foi chamado de Força Vermelha por aqui.

Trilogia da Incomunicabilidade

Trilogia da Incomunicabilidade

Assisti também pela primeira vez à chamada “Trilogia da Incomunicabilidade”, formada por A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962).

Dirigidos por Michelangelo Antonioni, os três filmes exploram relações vazias e a dificuldade de conexão. Em A Aventura, o desaparecimento de uma personagem perde importância diante do vazio emocional e da fragilidade dos vínculos. Em A Noite, acompanhamos o distanciamento de um casal que já não se reconhece. Já O Eclipse leva esse isolamento ao limite, culminando em um final abstrato. Gostei, mas meus favoritos do diretor seguem sendo Blow-Up, Zabriskie Point e Profissão: Repórter

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